Artigo

A cena mais triste da minha infância – (Suicídio) - Fabrício Carpinejar

O garoto da mochila amarela tirou a sua vida e se arrependeu. Porque buscava tirar a sua dor e não a sua vida

Na minha infância, uma das cenas mais tristes foi o suicídio de um adolescente no edifício da Rua Palmeiras.

O assunto tomou conta da minha meninice. Não se falava em outra coisa na escola, na vizinhança, na família. Até porque era o edifício mais alto do Petrópolis, formado praticamente por residências, e onde morava o zagueiro uruguaio Hugo De León, do Grêmio.

Fui assaltado por um luto de presidente. Nunca tinha ouvido alguém se matar. Lutava-se contra a morte na minha concepção pueril, jamais a favor dela. Você não queria morrer — a lei da sobrevivência consistia em adiar o máximo possível o fim, para a esperança aparecer um dia e contrariar as desilusões. Queria que todos que eu amava envelhecessem até os cem anos.

Não conhecia o garoto, apenas de vista, quando entrava no ônibus com a sua mochila amarela. Aliás, a mochila amarela monopolizou a minha curiosidade. Tampouco achava que existisse mochila de outra cor, que não a azul e a preta da aula.

Ficou sendo o meu primeiro contato com a palavra nebulosa e sombria "suicídio". Palavra proibida e temerária.

Escutava a conversa dos adultos por algumas frases e tentava montar a história. Por aquilo que me lembro, ele se separou da sua namorada e avisou que não viveria sem ela. Ela não acreditou na chantagem. Então, ele pulou, na madrugada, da janela do terceiro andar.

O zelador ainda o encontrou respirando e, de acordo com relato desesperado, o adolescente murmurava:

— Me ajude, eu desejo viver!

Ele tirou a sua vida e se arrependeu. Porque buscava tirar a sua dor e não a sua vida. As duas se confundiram por um momento e ele entendeu o recado errado de

seu coração. Pensou que o seu sofrimento e a sua biografia fossem extensão de uma mesma frequência. Agiu por desatino, encalacrado nas suas miragens.

O engano custou a pureza do bairro. Não teve como voltar atrás, não contou com uma segunda chance e uma reabilitação para aplicar a sua experiência derradeira e diferenciar as suas emoções.

Subiu precocemente aos céus como mais uma vítima inocente da angústia, esse sentimento que simula precipícios e becos e fecha as saídas com a pressa e a ansiedade.

Com o suicídio, por mais que pretendamos chamar a atenção, não nos tornamos importantes para ninguém, nem para nós.