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Fatos importantes sobre pontificado de Paulo VI

João Paulo II, João XXIII, Pio X, Pio V... Dos 266 Papas da história da Igreja, 80 já foram canonizados. Em 19 de outubro de 2014, outro Pontífice ficou mais perto de ser considerado santo. É o Papa Paulo VI, declarado beato pelo Papa Francisco, já em vistas a se tornar santo.

Para o doutor em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma Sávio Carlos Scopinho, Paulo VI foi um Papa atento aos acontecimentos de sua época. “O maior legado foi a capacidade de entender o seu tempo, diante das transformações que estavam acontecendo. Ele assumiu uma atitude de diálogo com a sociedade, tanto do ponto de vista das diversas religiões como dos avanços da ciência moderna”, afirma.

Autor de um estudo sobre a importância dada aos leigos durante o pontificado de Paulo VI, o professor universitário diz que o novo beato deu destaque especial a esse tema. “No que diz respeito à estrutura interna da Igreja, embora sem questionar a estrutura hierárquica, merece destaque a valorização do laicato, entendido como fundamental para estabelecer o diálogo da Igreja com a sociedade”, diz.

O pesquisador destaca também a realização de alguns sínodos que reforçaram a importância dos leigos em dois níveis de atuação. “Primeiro, no nível pastoral, entendendo o leigo como protagonista da ação eclesial e superando a mentalidade de que via o leigo como subordinado à hierarquia e passivo diante das decisões pastorais. Segundo, no nível social, enfocando a necessidade do leigo atuar como cristão em todos os campos da sociedade, com a perspectiva de interferir nas decisões sociais, visando a realização do projeto evangelizador de Jesus Cristo”, argumenta.

De acordo com Scopinho, o desenvolvimento das pastorais específicas também foi muito valorizado, apresentando-se espaços de possível atuação dos leigos na Igreja.

Segundo o professor, o pontificado de Paulo VI foi marcado por profundas transformações na Igreja e na sociedade. Outra característica apontada foi a superação da mentalidade de que fora da Igreja não há salvação. Segundo Scopinho, a interpretação sobre o que se entende por evangelização mudou. “A realização do Sínodo dos Bispos sobre Evangelização e a respectiva publicação da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi levaram essa compreensão para uma perspectiva ecumênica e de diálogo inter-religioso”, afirma.

De acordo com o professor, outra característica marcante foi a abertura de espaço para diversas experiências pastorais em nível mundial e, particularmente, na América Latina, com o desenvolvimento da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base.

Vaticano II

Completando 54 anos ano que vem, o Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, foi convocado por João XXIII. Com a morte do Papa, gerou-se dúvida sobre a continuidade do Concílio. Eleito em 1963, Paulo VI, retomou o processo e gerou a percepção de que o próprio Concílio não seria suficiente para refletir sobre todos os problemas e desafios da Igreja. “Paulo VI não só foi importante e fundamental para o encerramento do Concílio, mas deu continuidade aos temas quando propôs a realização dos Sínodos Episcopais, cujo objetivo era retomar certos temas que demandariam um maior aprofundamento e sistematização”, conta.

Outro aspecto importante, citado pelo pesquisador, é a implicação prática das decisões conciliares, que segundo ele, não foi diretamente enfrentada por João XXIII. “O pontificado de Paulo VI teve inúmeras iniciativas teológicas e pastorais que geraram profundos questionamentos à própria Igreja. Caso fosse um Papa com mentalidade adversa ao Concílio, essas iniciativas teriam sido barradas e proibidas”, argumenta.

Scopinho ressalta ainda que o posicionamento de Paulo VI ajudou no desenvolvimento dos movimentos apostólicos e da Teologia da Libertação na América Latina que contribuiu para a crítica ao modelo de sociedade implantado pelos diversos regimes militares nas décadas de 60 e 70 do século passado.

Quem foi Paulo VI?

Paulo VI foi o 262º Papa da história. Ele governou a Igreja Católica durante cerca de 15 anos, entre 1963 e 1978. Nascido em 26 de setembro de 1897, Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montiniera natural da cidade de Concesio, na Itália.

Desde cedo, mantinha uma ligação com a Igreja. Entrou para o seminário em 1916, aos 19 anos. Foi ordenado padre em 1920. Depois estudou na Universidade Gregoriana, na Universidade de Roma e na Pontifícia Academia Eclesiástica.

Homem de grande talento, Montini ocupou cargos importantes na Cúria Romana e desenvolveu funções de confiança dos Papas Pio XI e Pio XII. Este último o nomeou Arcebispo de Milão.

No conclave de 1958, mesmo sem ser ainda cardeal, Giovanni Montini recebeu vários votos. O sucessor de Pio XII acabou sendo João XXIII, que o nomeou cardeal. No dia 21 de junho de 1963, Giovanni Montini foi eleito Papa.

Devoto de Maria, publicou três encíclicas marianas e expressou seu carinho pela Virgem Maria sob o título de Nossa Senhora Aparecida em 1967, quando enviou uma rosa de ouro para a Basílica de Aparecida. O presente foi dado e função do jubileu de 250 anos do encontro da imagem nas águas do rio Paraíba.

Paulo VI também promoveu importantes diálogos com o mundo. Foi o primeiro Papa a viajar de avião e também o primeiro a visitar os cinco continentes. Foi o primeiro Papa a conversar com o líder da Igreja Anglicana e o primeiro, depois de muitos séculos, a conversar com dirigentes das diversas Igrejas Ortodoxas do Oriente. Em 1970, sofreu um atentado nas Filipinas.

Paulo VI publicou 12 exortações apostólicas e sete encíclicas. Entre as mais conhecidas estão Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização, e Humanae Vitaesobre o controle da natalidade, que se tornou de referência para a Igreja Católica nas questões sobre aborto, esterilização e métodos contraceptivos.

O que os Papas falam sobre Paulo VI

Durante o seu discurso, na missa solene de beatificação de Paulo VI, o Papa Francisco citou uma frase do beato, pronunciada poucas semanas antes de sua morte: “O amor pelas missões é amor pela Igreja, é amor por Cristo! Nenhum cristão pode se fechar em si mesmo, mas se deve abrir às necessidades espirituais daqueles que ainda não conhecem Cristo, e são centenas de milhões!”

Francisco afirmou que Paulo VI deu um forte impulso à consciência missionária da Igreja, citando o decreto conciliar Ad gentes, sobre as missões; o motu proprio Ecclesiae sanctae, com normas para a aplicação de alguns Decretos do Concílio; a mensagem Africae terrarum, em defesa da identidade africana e seus valores tradicionais, e a exortação apostólica Evangelii nuntiandi, sobre o compromisso de anunciar o Evangelho aos homens de nosso tempo.

Bento XVI também se declarou impressionado pelo ardor missionário que animou o Papa Montini. Segundo Ratzinger, esse ardor o levou a empreender viagens apostólicas, mesmo em nações longínquas, e a realizar gestos de grande valor eclesial, missionário e ecumênico. “Com o passar dos anos torna-se cada vez mais evidente a importância do seu pontificado, para Igreja e para o mundo, assim como para a inestimável herança de magistério e de virtude que ele deixou aos crentes e à humanidade inteira”, afirmou Bento XVI.

Ao instituir os Mistérios Luminosos na oração do Santo Rosário, em 2002, o Papa João Paulo II fez questão de citar o pensamento do mariano Paulo VI: “Sem contemplação, o Rosário é um corpo sem alma e sua oração corre o perigo de converter-se em mecânica repetição de fórmulas e de contradizer a advertência de Jesus”. João Paulo II voltou a citar o antecessor na Carta aos Artistas, ressaltando o carisma de diálogo de Paulo VI: “Compreende-se, assim, porque a Igreja está especialmente interessada no diálogo com a arte e quer que se realize na nossa época uma nova aliança com os artistas, como o dizia o meu venerando predecessor Paulo VI no seu discurso veemente aos artistas, durante um encontro especial na Capela Sistina, a 7 de Maio de 1964. A Igreja espera dessa colaboração uma renovada ‘epifania’ de beleza para o nosso tempo e respostas adequadas às exigências próprias da comunidade cristã”.

Num discurso às missões especiais, em setembro de 1978, o Papa João Paulo I, também ressaltou o caráter missionário do pontificado de Paulo VI. “O que nos alegra é, aos nossos olhos, o atrativo permanente e fascinador que o Evangelho e as coisas de Deus conservam no universo em que vivemos: esse atrativo manifesta a estima e a confiança que os povos quase todos mantêm para com a Igreja e a Santa Sé. Deve acrescentar-se que a ação dos últimos Papas, em especial do nosso venerado Predecessor Paulo VI, contribuiu muito para tal irradiação internacional”, afirmou.

Gestos de Paulo VI

Tirou a tiara papal para mostrar ao mundo que a autoridade do Papa não está vinculada a um poder temporal e humano. Ele queria que fosse vendida, e a receita, dada aos pobres. A tiara foi para um museu, e o valor arrecadado foi doado a Madre Tereza de Calcutá, durante uma viagem apostólica à Índia;

Aboliu o tribunal pontifício, reformou a Cúria e prosseguiu o diálogo com os ortodoxos, inaugurado pelo Papa João XXIII;

Dizia-se ser um Papa indeciso. Na verdade, sua vontade era de aprofundar. Queria ouvir as diferentes vozes, aprofundar os argumentos dos outros e, então, decidir;

Rico em espiritualidade, aguçado nas análises, genial em encontrar soluções, sensível às expectativas do povo da época.

Fonte: A12.com