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PEREGRINAÇÃO ECUMÊNICA DO PAPA FRANCISCO A GENEBRA POR OCASIÃO DO 70º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DO CONSELHO MUNDIAL DAS IGREJAS  ORAÇÃO ECUMÊNICA - DISCURSO DO SANTO PADRE Genebra - Centro Ecuménico WCC, quinta-feira, 21 de junho de 2018 Amados irmãos e irmãs! Ouvimos as palavras do apóstolo Paulo aos Gálatas, a braços com transtornos e lutas internas. De facto, havia grupos que se contrapunham e acusavam mutuamente. É neste contexto que por duas vezes, em poucos versículos, o apóstolo convida a «caminhar segundo o Espírito» (cf. Gal 5, 16.25). Caminhar: o homem é um ser a caminho. Durante toda a vida, é chamado a pôr-se a caminho, saindo continuamente donde se encontra: desde quando sai do ventre da mãe e vai passando duma idade da vida a outra; desde que deixa a casa dos pais até quando sai desta existência terrena. O caminho é uma metáfora que revela o sentido da vida humana, duma vida que não se basta a si mesma, mas está sempre à procura de algo mais. O coração convida-nos a caminhar, a alcançar uma meta.  Mas caminhar requer disciplina, causa fadiga; é necessária paciência diária e treinamento constante. É preciso renunciar a tantas estradas, para se escolher a que conduz à meta e mantê-la viva na memória para não se extraviar dela. Meta e memória. Caminhar requer a humildade de rever os próprios passos, quando for necessário, e a solicitude pelos companheiros de viagem, porque só se caminha bem juntos. Em suma, caminhar exige uma conversão contínua de si mesmo. É por isso que muitos desistem, preferindo a tranquilidade doméstica, onde pode cuidar comodamente dos seus negócios sem se expor aos riscos da viagem. Mas, assim, prende-se a seguranças efémeras, que não dão aquela paz e aquela alegria por que aspira o coração e que se encontram apenas saindo de si próprio. A isto nos chama Deus, desde os primórdios. Já pedira a Abraão para deixar a sua terra, pondo-se a caminho armado apenas de confiança em Deus (cf. Gn 12, 1). De igual modo Moisés, Pedro e Paulo, e todos os amigos do Senhor viveram caminhando. Mas foi sobretudo Jesus que nos deu o exemplo. Por nós, saiu da sua condição divina (cf. Flp 2, 6-7) e desceu para caminhar entre nós, Ele que é o Caminho (cf. Jo 14, 6). Senhor e Mestre, fez-Se peregrino e hóspede no meio de nós. Tendo regressado ao Pai, deu-nos o seu próprio Espírito, para que também nós tenhamos a força de caminhar na sua direção, de realizar o que Paulo pede: caminhar segundo o Espírito. Segundo o Espírito: se todo o homem é um ser a caminho e, fechando-se em si mesmo, renega a sua vocação, muito mais o cristão. Porque a vida cristã – assinala Paulo – depara-se com uma alternativa inconciliável: caminhar no Espírito, atendo-se ao traçado inaugurado pelo Batismo, ou «realizar os apetites da carne» (cf. Gal 5, 16). Que significa esta última expressão? Significa tentar realizar-se seguindo o caminho da acumulação de bens, a lógica do egoísmo, segundo a qual o homem procura, aqui e agora, agarrar tudo o que lhe apetece. Não se deixa levar docilmente para onde Deus indica, mas segue a própria rota. Temos diante dos olhos as consequências deste percurso trágico: na sua voracidade de coisas, o homem perde de vista os companheiros de viagem; em consequência, pelas estradas do mundo reina uma grande indiferença. Impelido pelos seus instintos, torna-se escravo dum consumismo desenfreado; em consequência, a voz de Deus é silenciada, os outros – sobretudo se incapazes de caminhar pelo próprio pé como bebés e idosos – são descartados porque importunos, a criação serve apenas para produzir à medida das necessidades. Amados irmãos e irmãs, mais do que nunca interpelam-nos hoje estas palavras do apóstolo Paulo: caminhar segundo o Espírito é rejeitar o mundanismo. É escolher a lógica do serviço e avançar no perdão. É inserir-se na história com o passo de Deus: não com o passo ribombante da prevaricação, mas com o passo cadenciado por «uma única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gal 5, 14). De facto, o caminho do Espírito está assinalado pelos marcos miliários que Paulo enumera: «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gal 5, 22). Somos chamados, juntos, a caminhar assim: a estrada passa por uma conversão contínua, pela renovação da nossa mentalidade para que se amolde ao Espírito Santo. Muitas vezes, no decurso da história, as divisões entre cristãos deram-se porque na raiz, na vida das comunidades, se infiltrou uma mentalidade mundana: primeiro cultivavam-se os próprios interesses e só depois os de Jesus Cristo. Nestas situações, o inimigo de Deus e do homem não teve dificuldade em separar-nos, porque a direção seguida era a da carne, não a do Espírito. Mais, algumas tentativas do passado para acabar com tais divisões falharam miseravelmente, porque inspiradas sobretudo por lógicas mundanas. Mas o movimento ecuménico, para o qual tanto contribuiu o Conselho Ecuménico das Igrejas, surgiu por graça do Espírito Santo (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio, 1). O ecumenismo pôs-nos em movimento segundo a vontade de Jesus e poderá avançar se, caminhando sob a guia do Espírito, recusar toda a reclusão autorreferencial. 
Mas – poder-se-ia objetar – caminhar assim é trabalhar com prejuízo, porque não se tutelam devidamente os interesses das próprias comunidades, muitas vezes solidamente ligados a origens étnicas ou a orientações consolidadas, sejam estas de tipo mais «conservador» ou mais «progressista». Sim, escolher ser de Jesus antes que de Apolo ou de Cefas (cf. 1 Cor 1, 12), antepor o ser de Cristo ao facto de ser «judeu ou grego» (cf. Gal 3, 28), ser do Senhor antes que de direita ou de esquerda, escolher em nome do Evangelho o irmão antes que a si mesmo significa frequentemente, aos olhos do mundo, trabalhar com prejuízo. Não tenhamos medo de trabalhar com prejuízo! O ecumenismo é «um grande empreendimento com prejuízo». Mas trata-se de prejuízo evangélico, segundo o caminho traçado por Jesus: «Quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de salvá-la» (Lc 9, 24). Salvaguardar-se a si próprio é caminhar segundo a carne; perderse seguindo Jesus é caminhar segundo o Espírito. Só assim se produz fruto na vinha do Senhor. Como ensina o próprio Jesus, não quantos amealham produzem fruto na vinha do Senhor, mas os que, servindo, seguem a lógica de Deus, o Qual continua a dar e a dar-Se (cf. Mt 21, 33-42). É a lógica da Páscoa, a única que dá fruto. Contemplando o nosso caminho, podemos ver espelhadas nele algumas situações das comunidades da Galácia de então: como é difícil amortecer as animosidades e cultivar a comunhão, como é duro sair de contrastes e rejeições mútuas alimentadas durante séculos! E mais árduo ainda é resistir à tentação subtil de estar junto com os outros, caminhar junto, mas com a intenção de satisfazer algum interesse de parte. Esta não é a lógica do Apóstolo; é a de Judas, que caminhava junto com Jesus, mas para proveito dos seus negócios. A resposta aos nossos passos vacilantes é sempre a mesma: caminhar segundo o Espírito, purificando o coração do mal, escolhendo com santa obstinação o caminho do Evangelho e recusando os atalhos do mundo. Depois de tantos anos de empenho ecuménico, neste septuagésimo aniversário do Conselho, peçamos ao Espírito que revigore o nosso passo. Este detém-se, com demasiada facilidade, à vista das divergências que persistem; muitas vezes bloqueia-se logo à partida, entorpecido pelo pessimismo. Que as distâncias não sejam desculpas! É possível, já agora, caminhar segundo o Espírito. Rezar, evangelizar, servir juntos: isto é possível e agradável a Deus. Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos: eis a nossa estrada-mestra de hoje. Esta estrada tem uma meta concreta: a unidade. A estrada oposta, a da divisão, leva a guerras e destruições. Basta ler a história. O Senhor pede-nos para embocar continuamente o caminho da comunhão, que leva à paz. De facto, a divisão «contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura» (Decr. Unitatis redintegratio, 1). O Senhor pede-nos unidade; o mundo, dilacerado por demasiadas divisões que afetam sobretudo os mais fracos, invoca unidade. Amados irmãos e irmãs, desejei vir aqui, peregrino em busca de unidade e de paz. Agradeço a Deus porque aqui vos encontrei a vós, irmãos e irmãs já a caminho. Caminhar juntos, para nós cristãos, não é uma estratégia para fazer valer mais o nosso peso, mas é um ato de obediência ao Senhor e de amor pelo mundo. Obediência a Deus e amor ao mundo, o verdadeiro amor que salva. Peçamos ao Pai para caminhar juntos, com mais vigor, nos caminhos do Espírito. Que a Cruz nos sirva de orientação no caminho, porque lá, em Jesus, foram abatidos os muros de separação e foi vencida toda a inimizade (cf. Ef 2, 14): lá compreendemos que, apesar de todas as nossas fraquezas, nada poderá jamais separar-nos do seu amor (cf. Rm 8, 35-39). Obrigado. -------------------------------------------------------------. PEREGRINAÇÃO ECUMÊNICA DO PAPA FRANCISCO A GENEBRA POR OCASIÃO DO 70º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DO CONSELHO MUNDIAL DAS IGREJAS  ENCONTRO ECUMÊNICO - DISCURSO DO SANTO PADRE Centro Ecuménico - Visser't Hooft Hall, quinta-feira, 21 de junho de 2018 Amados irmãos e irmãs! Estou feliz por vos encontrar e grato pela vossa calorosa receção. Agradeço de modo particular ao Secretário-Geral, Reverendo Dr. Olav Fykse Tveit, e à Moderadora, Dra. Agnes Abuom, pelas suas palavras e por me terem convidado por ocasião do septuagésimo aniversário da criação do Conselho Mundial das Igrejas. Biblicamente, o cômputo de setenta anos evoca a duração completa duma vida, sinal de bênção divina. Mas, setenta é também um número que traz à mente duas passagens famosas do Evangelho. Na primeira, o Senhor mandou perdoar-nos, não até sete vezes, mas «até setenta vezes sete» (Mt 18, 22). O número não pretende por certo indicar um limite quantitativo, mas abrir um horizonte qualitativo: não mede a justiça, mas alonga a medida para uma caridade desmesurada, capaz de perdoar sem limites. É esta caridade que nos permite, depois de séculos de contrastes, estar juntos como irmãos e irmãs reconciliados e agradecidos a Deus nosso Pai. 
O facto de nos encontrarmos aqui deve-se também a quantos nos precederam no caminho, escolhendo a estrada do perdão e consumindo-se para responder à vontade do Senhor: que «todos sejam um só» (Jo 17, 21). Impelidos pelo desejo ardente de Jesus, não se deixaram manietar pelos nós complicados das controvérsias, mas encontraram a audácia de olhar mais além e acreditar na unidade, superando as barreiras das suspeitas e do medo. É verdade aquilo que afirmava um antigo pai na fé: «Se verdadeiramente o amor conseguir eliminar o medo e este se transformar em amor, então descobrir-se-á que o que salva é precisamente a unidade» (São Gregório de Nissa, Homilia 15 sobre o Cântico dos Cânticos). Somos os beneficiários da fé, da caridade e da esperança de muitos que tiveram, com a força desarmada do Evangelho, a coragem de inverter o sentido da história; aquela história que nos levara a desconfiar uns dos outros e a alhear-nos mutuamente, seguindo a espiral diabólica de incessantes fragmentações. Graças ao Espírito Santo, inspirador e guia do ecumenismo, o sentido mudou e ficou indelevelmente traçado um caminho novo e, ao mesmo tempo, antigo: o caminho da comunhão reconciliada, rumo à manifestação visível daquela fraternidade que já une os crentes. Mas, o número setenta proporciona-nos um segundo motivo evangélico: lembra aqueles discípulos que Jesus, durante o ministério público, enviou em missão (cf. Lc 10, 1) e são objeto de celebração no Oriente cristão. O número destes discípulos alude ao número das nações conhecidas, elencadas nos primeiros capítulos da Sagrada Escritura (cf. Gn 10). Que sugestão nos deixa isto? Que a missão tem em vista todos os povos, e cada discípulo, para ser tal, deve tornar-se apóstolo, missionário. O Conselho Ecuménico das Igrejas nasceu como instrumento do movimento ecuménico que foi suscitado por um forte apelo à missão: como podem os cristãos evangelizar, se estão divididos entre si? Esta premente interpelação orienta ainda o nosso caminho e traduz o pedido do Senhor para permanecermos unidos a fim de que «o mundo creia» (Jo 17, 21). Permiti-me, amados irmãos e irmãs, que, além de viva gratidão pelo empenho que dedicais à unidade, vos manifeste também uma preocupação. Esta deriva da impressão de que o ecumenismo e a missão já não aparecem tão intimamente interligados como no princípio. E todavia o mandato missionário, que é mais do que a diakonia e a promoção do desenvolvimento humano, não pode ser esquecido nem anulado. Em causa está a nossa identidade. O anúncio do Evangelho até aos últimos confins da terra é conatural ao nosso ser de cristãos. Com certeza, a maneira de exercer a missão varia segundo os tempos e lugares e, perante a tentação – infelizmente habitual – de se impor seguindo lógicas mundanas, é preciso lembrar-se de que a Igreja de Cristo cresce por atração. Mas, em que consiste esta força de atração? Não está por certo nas nossas ideias, estratégias ou programas: não se crê em Jesus Cristo através duma recolha de consensos, nem o Povo de Deus se pode reduzir ao nível duma organização não-governamental. Não! A força de atração está toda naquele dom sublime que conquistou o apóstolo Paulo: «Conhecer a [Cristo], na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos» (Flp 3, 10). Este é o nosso único motivo de glória: «o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo» (2 Cor 4, 6) e que nos foi dado pelo Espírito vivificador. Este é o tesouro que nós, frágeis vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7), devemos oferecer a este nosso amado e atribulado mundo. Não seríamos fiéis à missão que nos foi confiada, se reduzíssemos este tesouro ao valor dum humanismo puramente imanente, ao sabor das modas do momento. E seríamos maus guardiões, se quiséssemos apenas preservá-lo, enterrando-o com medo de sermos provocados pelos desafios do mundo (cf. Mt 25, 25). Aquilo de que temos verdadeiramente necessidade é dum novo ímpeto evangelizador. Somos chamados a ser um povo que vive e partilha a alegria do Evangelho, que louva ao Senhor e serve os irmãos, com o espírito que deseja ardentemente descerrar horizontes de bondade e beleza inauditos a quem ainda não teve a graça de conhecer verdadeiramente a Jesus. Estou convencido que, se aumentar o impulso missionário, crescerá também a unidade entre nós. Como nos primórdios o anúncio marcou a primavera da Igreja, assim a evangelização marcará o florescimento duma nova primavera ecuménica. Como nos primórdios, estreitemo-nos em comunhão ao redor do Mestre, envergonhando-nos das nossas contínuas hesitações e dizendo-Lhe com Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Amados irmãos e irmãs, desejei participar pessoalmente nas comemorações deste aniversário do Conselho inclusive para reafirmar o empenhamento da Igreja Católica na causa ecuménica e encorajar a cooperação com as Igrejas-membros e com os parceiros ecuménicos. A propósito, quero deter-me um pouco, também eu, no lema escolhido para este dia: Caminhar - Rezar - Trabalhar juntos. Caminhar sim, mas para onde? Na base do que ficou dito, sugeriria um movimento duplo: de entrada e de saída. De entrada, a fim de nos dirigirmos constantemente para o centro, reconhecendo-nos ramos enxertados na única videira que é Jesus (cf. Jo 15, 1-8). Não daremos fruto sem nos ajudarmos mutuamente a permanecer unidos a Ele. De saída, rumo às múltiplas periferias existenciais de hoje, para levarmos juntos a graça sanadora do Evangelho à humanidade atribulada. Poderíamos interrogar-nos se estamos a caminhar de verdade ou apenas em palavras, se apresentamos os irmãos ao Senhor e os temos verdadeiramente a peito, ou se estão longe dos nossos reais interesses. Poderíamos interrogar-nos também se o nosso caminho é um mero cirandar sobre os nossos passos, ou uma convicta saída pelo mundo levando-lhe o Senhor. Rezar: como no caminho, também na oração não podemos avançar sozinhos, porque a graça de Deus, mais do que retalhar-se à medida do indivíduo, difunde-se harmoniosamente entre os crentes que se amam. Quando dizemos «Pai nosso», ressoa dentro de nós a nossa filiação, mas também o nosso ser de irmãos. A oração 
é o oxigénio do ecumenismo. Sem oração, a comunhão asfixia e não avança, porque impedimos que o vento do Espírito a empurre para diante. Interroguemo-nos: Quanto rezamos uns pelos outros? O Senhor rezou para sermos um só; imitamo-Lo nisto? Trabalhar juntos: a propósito, quero reiterar que a Igreja Católica reconhece a importância particular do trabalho realizado pela Comissão Fé e Constituição e deseja continuar a contribuir para ele através da participação de teólogos altamente qualificados. A pesquisa de Fé e Constituição em ordem a uma visão comum da Igreja e o seu trabalho no discernimento das questões morais e éticas tocam pontos nevrálgicos do desafio ecuménico. De igual modo a presença ativa na Comissão para a Missão e a Evangelização, a colaboração com o Departamento para o Diálogo Inter-religioso e a Cooperação – ainda recentemente sobre o tema importante da educação para a paz –, a preparação conjunta dos textos para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e várias outras formas de sinergia são elementos constitutivos duma sólida e corroborada colaboração. Além disso, aprecio o papel imprescindível do Instituto Ecuménico de Bossey na formação ecuménica das jovens gerações de responsáveis pastorais e académicos de muitas Igrejas e Confissões Cristãs de todo o mundo. Há muitos anos que a Igreja Católica colabora nesta obra educativa com a presença dum professor católico na Faculdade; e cada ano tenho a alegria de saudar o grupo de alunos que realiza a sua visita de estudo a Roma. Quero também mencionar, como bom sinal de «harmonia ecuménica», a crescente adesão ao Dia de Oração pela Salvaguarda da Criação. Além disso, o trabalho tipicamente eclesial tem um sinónimo bem definido: diakonia. É o caminho por onde podemos seguir o Mestre, que «não veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10, 45). O serviço variado e intenso das Igrejas-membros do Conselho encontra uma expressão emblemática na Peregrinação de Justiça e de Paz. A credibilidade do Evangelho é testada pela maneira como os cristãos respondem ao clamor de quantos injustamente, nos diferentes cantos da terra, são vítimas do trágico aumento duma exclusão que, gerando pobreza, fomenta os conflitos. Os fracos são cada vez mais marginalizados, vendo-se sem pão, sem trabalho nem futuro, enquanto os ricos são sempre menos e sempre mais ricos. Sintamo-nos interpelados pelo pranto dos que sofrem e compadeçamo-nos, porque «o programa do cristão (…) é um coração que vê» (Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est, 31). Vejamos o que é possível fazer concretamente, em vez de nos desencorajar pelo que não o é. Olhemos também para muitos dos nossos irmãos e irmãs que em várias partes do mundo, especialmente no Médio Oriente, sofrem porque são cristãos. Estejamos ao seu lado. E lembremo-nos de que o nosso caminho ecuménico é precedido e acompanhado por um ecumenismo já realizado, o ecumenismo do sangue, que nos exorta a avançar. Encorajemo-nos a superar a tentação de absolutizar certos paradigmas culturais e de nos deixar absorver por interesses de parte. Ajudemos as pessoas de boa vontade a dar maior espaço a situações e vicissitudes que afetam grande parte da humanidade, mas ocupam um lugar demasiado marginal na grande informação. Não podemos desinteressar-nos, e devemos inquietar-nos quando alguns cristãos se mostram indiferentes face a quem passa necessidade. E mais triste ainda é a convicção de quantos consideram os seus benefícios como puros sinais de predileção divina, e não como apelo a servir responsavelmente a família humana e salvaguardar a criação. É sobre o amor ao próximo, a cada pessoa que nos está próxima, que nos interpelará o Senhor (cf. Mt 25, 31-46), o Bom Samaritano da humanidade (cf. Lc 10, 29-37). Perguntemo-nos então: que podemos fazer juntos? Se um serviço é possível, por que não projetá-lo e realizá-lo conjuntamente, começando a experimentar uma fraternidade mais intensa no exercício da caridade concreta? Amados irmãos e irmãs, reitero-vos a minha cordial gratidão. Ajudemo-nos a caminhar, rezar e trabalhar juntos, para que, com a ajuda de Deus, progrida a unidade e o mundo acredite. Obrigado. -----------------------------------------------------------------. PEREGRINAÇÃO ECUMÉNICA DO PAPA FRANCISCO A GENEBRA POR OCASIÃO DO 70º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DO CONSELHO MUNDIAL DAS IGREJAS  SANTA MISSA - HOMILIA DO SANTO PADRE Genebra – Palexpo, quinta-feira, 21 de junho de 2018 Pai, pão, perdão: três palavras, que encontramos no Evangelho de hoje; três palavras, que nos levam ao coração da fé. «Pai»: começa assim a oração. Pode-se continuar com palavras diferentes, mas não é possível esquecer a primeira, porque a palavra «Pai» é a chave de acesso ao coração de Deus; com efeito, só dizendo Pai é que rezamos em língua cristã, é que rezamos «cristão»: não um Deus genérico, mas Deus que é, antes de mais nada, Papá. De facto, Jesus pediu-nos para dizer «Pai nosso que estais nos céus»; não «Deus dos céus, que sois Pai». Antes de tudo, antes de ser infinito e eterno, Deus é Pai. D’Ele provém toda a paternidade e maternidade (cf. Ef 3, 15). N’Ele está a origem de todo o bem e da nossa própria vida. Então «Pai nosso» é a fórmula da vida, aquela que revela a nossa identidade: somos filhos amados. É a fórmula que resolve o teorema da solidão e o problema da orfandade. É a equação que indica o que se deve fazer: amar a Deus, nosso Pai, e aos outros, nossos irmãos. É a oração do nós, da Igreja; uma oração sem o 
eu nem o meu, mas toda voltada para o vós de Deus («o vosso nome», «o vosso reino», «a vossa vontade») e que se conjuga apenas na primeira pessoa do plural. «Pai nosso»: duas palavras que nos oferecem a sinalética da vida espiritual. Desta forma, sempre que fazemos o sinal da cruz no princípio do dia e antes de cada atividade importante, sempre que dizemos «Pai nosso», reapropriamo-nos das raízes que nos servem de fundamento. Precisamos de o fazer nas nossas sociedades frequentemente desenraizadas. O «Pai nosso» revigora as nossas raízes. Quando está o Pai, ninguém fica excluído; o medo e a incerteza não levam a melhor. Prevalece a memória do bem, porque, no coração do Pai, não somos personagens virtuais, mas filhos amados. Ele não nos une em grupos de partilha, mas gera-nos juntos como família. Não nos cansemos de dizer «Pai nosso»: lembrar-nos-á que não existe filho algum sem Pai e, por conseguinte, nenhum de nós está sozinho neste mundo; mas lembrar-nos-á também que não há Pai sem filhos: nenhum de nós é filho único, cada um deve cuidar dos irmãos na única família humana. Ao dizer «Pai nosso», afirmamos que cada ser humano é parte nossa e, face aos inúmeros malefícios que ofendem o rosto do Pai, nós, seus filhos, somos chamados a reagir como irmãos, como bons guardiões da nossa família e a trabalhar para que não haja indiferença perante o irmão, cada irmão: tanto do bebé que ainda não nasceu como do idoso que já não fala, tanto dum nosso conhecido a quem não conseguimos perdoar como do pobre descartado. Isto é o que o Pai nos pede, nos manda: amar-nos com coração de filhos, que são irmãos entre si. Pão: Jesus diz para pedir cada dia, ao Pai, o pão. Não é preciso pedir mais: só o pão, isto é, o essencial para viver. O pão é, antes de mais nada, o alimento suficiente para hoje, para a saúde, para o trabalho de hoje; aquele alimento que, infelizmente, falta a muitos dos nossos irmãos e irmãs. Por isso digo: ai daqueles que especulam sobre o pão! O alimento básico para a vida quotidiana dos povos deve ser acessível a todos. Pedir o pão de cada dia é dizer também: «Pai, ajuda-me a fazer uma vida mais simples». A vida tornou-se tão complicada; apetece-me dizer que hoje, para muitos, a vida de certo modo está «drogada»: corre-se de manhã à noite, por entre mil chamadas e mensagens, incapazes de parar fixando os rostos, mergulhados numa complexidade que fragiliza e numa velocidade que fomenta a ansiedade. Impõe-se uma opção de vida sóbria, livre de pesos supérfluos. Uma opção contracorrente, como outrora fez São Luís Gonzaga que hoje recordamos. A opção de renunciar a muitas coisas que enchem a vida, mas esvaziam o coração. Irmãos e irmãs, optemos pela simplicidade, a simplicidade do pão, para voltar a encontrar a coragem do silêncio e da oração, fermento duma vida verdadeiramente humana. Optemos pelas pessoas em vez das coisas, para que levedem relações, não virtuais, mas pessoais. Voltemos a amar a genuína fragrância daquilo que nos rodeia. Em casa, quando eu era criança, se o pão caísse da mesa, ensinavam-nos a apanhá-lo imediatamente e a beijá-lo. Apreciar o que temos de simples cada dia e guardá-lo: não usar e jogar fora, mas apreciar e guardar. E não esqueçamos também que «o Pão de cada dia» é Jesus. Sem Ele, nada podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Ele é o alimento básico para viver bem. Às vezes, porém, reduzimos Jesus a um condimento; mas, se não for o nosso alimento vital, o centro dos nossos dias, o respiro da vida quotidiana, tudo é vão, temos condimento e nada mais. Ao suplicar o pão, pedimos ao Pai e dizemos para nós mesmos cada dia: simplicidade de vida, cuidado por aquilo que nos rodeia, Jesus em tudo e antes de tudo. Perdão: é difícil perdoar, dentro trazemos sempre um pouco de queixume, de ressentimento e, quando somos provocados por quem já tínhamos perdoado, o rancor volta e… com juros. Mas, como dom, o Senhor pretende o nosso perdão. Impressiona o facto de o único comentário original ao Pai nosso, o de Jesus, se concentrar numa única frase: «Porque, se perdoardes aos outros as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas» (Mt 6, 14-15). O único comentário que faz o Senhor! O perdão é a cláusula vinculante do Pai nosso. Deus liberta-nos o coração de todo o pecado, Deus perdoa tudo, tudo; mas pede uma coisa: que nós, por nossa vez, não nos cansemos de perdoar. De cada um de nós pretende uma amnistia geral das culpas alheias. Seria preciso fazer uma boa radiografia do coração, para ver se, dentro de nós, há bloqueios, obstáculos ao perdão, pedras a remover. E então dizer ao Pai: «Vede este penedo! Confio-o a Vós e peço-Vos por esta pessoa, por esta situação; embora sinta dificuldade em perdoar, peço-Vos a força de o fazer». O perdão renova, o perdão faz milagres. Pedro experimentou o perdão de Jesus e tornou-se pastor do seu rebanho; Saulo tornou-se Paulo depois do perdão que recebeu de Estêvão; cada um de nós renasce como nova criatura quando, perdoado pelo Pai, ama os irmãos. Só então introduzimos uma novidade verdadeira no mundo, porque não há novidade maior do que o perdão, este perdão que muda o mal em bem. Vemo-lo na história cristã. Como nos fez e continua a fazer bem o facto de nos perdoarmos uns aos outros, de voltar a descobrir-nos irmãos depois de séculos de controvérsias e lacerações! O Pai é feliz, quando nos amamos e perdoamos verdadeiramente de coração (cf. Mt 18, 35); e então dá-nos o seu Espírito. Peçamos esta graça: de não nos fecharmos com ânimo endurecido, sempre a reivindicar dos outros, mas de dar o primeiro passo, na oração, no encontro fraterno, na caridade concreta. Assim seremos mais parecidos com o Pai, que ama sem esperar reembolso. E Ele derramará sobre nós o Espírito de unidade. -------------------.  
Agradecimento final Agradeço cordialmente a D. Morerod e à comunidade diocesana de Lausanne-Genebra-Friburgo. Obrigado pela vossa receção, preparação e oração! Oração, que peço, por favor, para continuardes. Também eu rezarei por vós, para que o Senhor vele sobre o vosso caminho, especialmente o ecuménico. A minha saudação agradecida estende-se a todos os Pastores das dioceses suíças e aos outros Bispos presentes, bem como aos fiéis vindos de várias partes da Suíça, da França e doutros países. Saúdo os habitantes desta bela cidade, onde exatamente há seiscentos anos se hospedou o Papa Martinho V e que é sede de importantes instituições internacionais, nomeadamente a Organização Internacional do Trabalho, cujo centenário de fundação terá lugar no próximo ano. Agradeço vivamente ao Governo da Confederação Suíça pelo amável convite e a excelente colaboração. Obrigado! Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Adeus até à próxima!   -----------------------------------------------------------------------------. Coletiva de imprensa do Papa após sua visita à Suíça 
Assinar AVIÃO PAPAL, 21 Jun. 18 / 07:05 pm (ACI).- O Papa Francisco concedeu nesta quinta-feira uma conferência de imprensa durante o vôo que o levou a Roma, logo depois de realizar uma visita a Genebra (Suíça), no marco do 70° aniversário do Conselho Ecumênico das Igrejas (WCC). Durante a conversa com a imprensa, o Pontífice respondeu perguntas sobre o ecumenismo, o problema migratório na Europa e Estados Unidos, assim como sobre a proposta dos bispos alemães para dar a Comunhão aos protestantes casados com católicos. A seguir o texto completo:  Papa Francisco: Obrigado pelo seu trabalho, foi uma jornada um pouco pesada, ao menos para mim. Mas estou contente pelas diversas coisas que fizemos, tanto a oração ao início, logo o diálogo durante o almoço...esteve tudo muito bonito. Depois o encontro acadêmico, a Missa. São coisas que me deixaram feliz. Cansam, mas são coisas boas. Obrigado. Greg Burke: Bem. Começamos com os suíços. Arnaud Bedat da revista L’Illustré Bedat: Santo Padre, esteve em Genebra, mas também na Suíça, que imagens, que momentos fortes lhe marcaram durante esta jornada? Papa Francisco: Acredito que há uma palavra comum: encontro. Foi uma jornada de encontros, variedade, e a palavra precisa da jornada é “encontro”. Quando uma pessoa encontra a outra e sente prazer pelo encontro, isto toca o coração, sempre são encontros positivos, também belos, começando com o diálogo com o presidente ao início, que não foi um diálogo de cortesia, normal, mas sim um diálogo profundo, sobre temas mundiais profundos e com uma inteligência que fiquei surpreso. Depois, houve o encontro que todos viram e aquele que ninguém viu e me refiro ao encontro durante o almoço que foi muito profundo no seu modo de tocar tantos temas. Possivelmente o tema no qual permanecemos mais tempo foi o dos jovens, porque todas as confissões estão preocupadas no bom sentido pelos jovens, e o pré-sínodo que se realizou em Roma desde em 19 de março, chamou bastante a atenção porque eram jovens de todas as confissões e inclusive agnósticos de todos os países. Pensem nisto: 315 jovens ali e outros milhares conectados que entravam online, entravam e saíam. Isto possivelmente marcou um interesse especial. Mas a palavra que me dá a totalidade da viagem é “encontro”, foi uma viagem de “encontro”… Nenhuma descortesia, nada puramente formal. Encontro humano. Católicos, protestantes, todos. Jornalista: Santo Padre, o senhor fala frequente de passos concretos para fazer o ecumenismo. Hoje por exemplo referiu-se novamente a isto dizendo: vejamos o que é possível fazer de concreto mais do que desalentar as iniciativas. Pois bem, os bispos alemães ultimamente decidiram dar um passo, então nos perguntamos se o arcebispo Ladaria não teria escrito uma carta que agora soa mais como um freio de emergência, depois do encontro de 3 de maio, que foi em Roma, ocasião em que os bispos alemães deveriam ter encontrado uma solução possivelmente unânime. Quais serão os próximos passos, será necessário uma intervenção de parte do Vaticano para esclarecer?, ou os bispos alemães deverão chegar a um acordo? 
Isto não é uma novidade, porque no Código de Direito Canônico está previsto aquilo que os bispos alemães falavam: a comunhão em casos especiais. E eles olhavam o problema dos matrimônios mistos, se (a comunhão ao cônjuge não católico) era possível ou não. O Código diz que o bispo da Igreja particular, essa palavra importante, particular, quer dizer de uma diocese, deve conduzir este assunto com as próprias mãos. Isto está no Código. Os bispos alemães, por terem visto que isto não era claro e que alguns sacerdotes faziam coisas em desacordo com o bispo, quiseram estudar este tema e fizeram este estudo que, eu não quero exagerar, mas foi um estudo de mais de um ano, bem feito, bastante bem feito. E o estudo era restritivo. Aquilo que os bispos queriam era esclarecer o que está no Código, e também eu que li o estudo o digo, mas este é um documento restritivo. Nunca se tratou de abrir a todos. Não... Foi algo bem pensado, feito com espírito eclesiástico. E quiseram fazê-lo para a Igreja local, não a particular, não o quiseram. E a coisa termina na Conferência Alemã. Aí há um problema porque o Código não prevê isso. Prevê que o bispo da diocese decida, mas não que a conferência decida, porque uma coisa aprovada em uma conferência episcopal, logo se converte em universal. E esta foi a dificuldade na discussão, nem tanto o conteúdo, mas este aspecto específico, e assim enviaram o documento. Depois houve dois ou três encontros de diálogo, de esclarecimento e o Arcebispo Ladaria enviou essa carta com minha permissão. Não o fez por sua conta. Eu disse: sim, é melhor dar um passo adiante e dizer que o documento ainda não está maduro, isso era o que dizia a carta, e que devia estudarse mais a questão. Depois houve outra reunião e ao final estudarão mais o tema. Acredito que isto resultará em um documento orientativo para que cada bispo diocesano possa “gestire” o que o Direito Canônico permite. Não foi nenhum freio. Tratou-se de reger a coisa para que andasse por bom caminho. Quando visitei a igreja luterana de Roma, foi feita uma pergunta deste tipo e respondi de acordo ao espírito do Código de Direito Canônico. E é o espírito que procuram agora. Talvez não foi uma informação precisa, em um momento adequado e houve um pouco de confusão, mas este é o tema: a Igreja particular, o Código o permite; a Igreja local, não pode ser a universal. A Conferência pode estudar e dar as orientações para ajudar os bispos a atuar nos casos particulares. Eva Fernández (COPE): Vimos que também o secretário geral do Conselho Ecumênico das Igrejas falou sobre a ajuda aos refugiados. Recentemente vimos os incidentes do barco Aquarius e outros casos como a separação das famílias nos Estados Unidos. O senhor acredita que alguns governos instrumentalizam o drama dos refugiados para fazer fotografias e coisas assim? Papa Francisco: falei muito sobre os refugiados. Os critérios são os que ofereci: acolher, acompanhar, educar, integrar. São critérios para todos os refugiados. Logo eu disse que todos os países devem fazer isto com a virtude própria do governo que é a virtude da prudência porque um país deve acolher todos os refugiados que possa e integrá-los: educar, integrar, dar-lhes trabalho. Isto no plano tranquilo e sereno dos refugiados. Aqui estamos vivendo uma onda de refugiados que fogem das guerras e da fome. Guerras e fome em muitos países da África. Guerra e perseguição no Oriente Médio. Itália e Grécia foram muito generosos em acolher. Para o Oriente Médio, Turquia, em relação à Síria, recebeu muitos. O Líbano, muitos sírios e libaneses; e logo a Jordânia, e outros países como a Espanha também receberam. E existe o problema do tráfico de imigrantes e é um problema quando, em alguns casos, eles voltam, porque devem voltar. Não conheço bem os termos do acordo, mas dependendo de onde estejam nas águas… devem voltar. E vi as fotografias dos cárceres e como os traficantes separam rapidamente homens e mulheres. As mulheres e crianças vão (à parte). Isto é o que fazem os traficantes. Há um caso que conheço em que os traficantes se aproximaram de um navio que os acolheu e lhes passaram as mulheres e crianças, e levaram embora os homens. Os cárceres dos traficantes, onde ficam os que retornaram, são terríveis, são como os lagers da segunda guerra mundial se viam estas coisas: mutilações, tortura de um braço… e logo jogam os homens em fossas comuns. Por isso os governos se preocupam de que (os imigrantes) não voltem nem caiam nas mãos desta gente. É uma preocupação mundial. Sei que os governos falam disto e querem fazer um acordo, modificar o acordo do Dublin sobre tudo isto. Na Espanha tiveram o caso desta nave que chegou a Valência. Mas tudo isto é uma desordem. O problema das guerras é difícil de resolver, o problema da perseguição de cristãos, também no Oriente Médio, também na Nigéria, o problema da fome se pode resolver. Muitos governos europeus estão pensando em um plano de urgência para investir naquele país, investir inteligentemente para dar trabalho e educação, estas duas coisas, nos países de onde vêm estas pessoas. Porque, há uma coisa que, sem ânimo de ofender, mas é a verdade: no inconsciente coletivo há uma ideia ruim. “África está para ser 
explorada. São africanos, sempre serão, terra de escravos”. E isto deve mudar com este plano de investimento, de educação, de fazer crescer porque o povo africano tem muitas riquezas culturais, muitas. E têm uma grande inteligência. Os pequenos são inteligentes e com uma boa educação podem chegar longe. Este será o caminho em médio prazo, mas no momento os governos devem colocar-se de acordo para ir adiante com esta emergência. Isto aqui na Europa. Vamos à América. Na América Latina há um problema migratório grande, e há um problema migratório interno grande. Em minha pátria há um grande problema migratório de norte a sul. Muita gente deixa o campo porque não há trabalho e vão às grandes cidades e surgem estas megalópoles, todas estas coisas. Também há migrações externas a países que dão trabalho. Falando concretamente sobre os Estados Unidos, eu afirmo o que dizem os bispos do país. Eu estou com eles. Debora Castellano Lubov: Obrigado Santidade. Em seu discurso de hoje no Encontro Ecumênico, o senhor fez uma referência à enorme força do Evangelho. Sabemos que algumas das igrejas, do World Council of Churches, são as chamadas igrejas da paz, que acreditam que um cristão não pode usar a violência. Recordamos que há dois anos no Vaticano se realizou uma conferência sobre o tema. Você acredita que a Igreja Católica deve unir-se a estas chamadas igrejas da paz e ficar de parte da teoria da guerra justa?    Papa: Uma pergunta, por que você diz que há igrejas da paz? Porque são consideradas igrejas da paz porque têm este pensamento de que uma pessoa que use a violência não pode ser considerada cristão. Papa: Você pôs o dedo na ferida. Acredito que hoje no almoço um pastor disse que talvez o primeiro direito humano é o direito à esperança, e eu gostei. Isto entra na conversa. Nós falamos sobre a crise dos direitos humanos hoje. Devo começar com isto para passar à sua pergunta. A crise dos direitos humanos se vê claramente. Fala-se um pouco de direitos humanos, mas muitos grupos ou alguns países, tomam distância. Sim, direitos humanos, mas não há força nem o entusiasmo, a convicção, não digo de 70 anos atrás, mas nem sequer a de 20 anos atrás. E isto é grave porque devemos ver as causas, mas quais são as causas pelas que chegamos a esta situação?  hoje os direitos humanos são relativos. Também o direito à paz é relativo. É uma crise de direitos humanos. Acredito que devemos refletir com profundidade sobre isto, certamente. Logo, igrejas da paz: acredito que todas as igrejas que têm este espírito de paz devem reunir-se e trabalhar juntas como dissemos no discurso hoje. Tanto eu como outros que discursaram, no almoço também falamos da unidade para a paz, é uma exigência porque se houver o risco de uma guerra que nós…Alguém disse isto: esta terceira guerra mundial se ocorrer, não sabemos com que armas será lutada, mas se houvesse uma quarta, será entre fortificações porque a humanidade já estaria destruída. O compromisso pela paz é sério, mas quando se pensa no dinheiro que se gasta em armamentos… Por isso as religiões de paz que… O mandato de Deus, a paz, a irmandade, a humanidade unida. Não todos os conflitos se resolvem como Caim, mas com a negociação, com o diálogo, com a mediação. Estamos em crise de mediação. A mediação é uma figura jurídica muito rica que hoje está em crise. Crise de esperança, crise de direitos humanos, crise de mediação, crise de paz. Se você disser que há religiões de paz, pergunto-me. Há religiões de guerra? É difícil entender isto. É difícil, mas certamente há alguns grupos em quase todas as religiões, grupos pequenos, um pouco –simplesmente direi– fundamentalistas, que procuram a guerra. Também nós católicos temos alguns. Procuram sempre a destruição. Isto é muito importante ter diante dos olhos. Não sei se cheguei a respondê-la. Hoje foi uma jornada ecumênica. E no almoço dissemos uma bela palavra, uma coisa muito e eu acentuo para vocês para que façam uma consideração. No movimento ecumênico devemos tirar do dicionário uma palavra: o proselitismo. Está claro? Não pode haver ecumenismo com proselitismo. Deve-se escolher. Ou tem-se espírito ecumênico ou é proselitista.   Bom apetite, bom jantar e rezem por mim, obrigado.   

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