Artigo

Os fantasmas nossos de cada dia

 Os fantasmas são sombras que nos acompanham no dia a dia. Presenças de contornos híbridos e indefinidos, mas nem por isso menos temerosas. Irrompem do nada, como se brotassem do chão, e interrompem nossos passos e pensamentos. Ignotas e anônimas, possuem o poder de nos assustar, uma vez que não é possível encará-las de frente, olhos nos olhos. Exatamente por serem sombras, costumam perseguir-nos de perto, porém, quando tentamos agarrá-las, nos escapam. Furtivas e desconhecidas, escondem-se atrás de cada curva, de cada esquina, em permanente emboscada.

Como nas tragédias do dramaturgo britânico Shakespeare – Macbeth e Hamlet, por exemplo – os fantasmas habitam o passado, mas com frequência visitam o presente, tanto em forma de pesadelos quanto à maneira de ideias fixas e obsessivas. Não raro confundem os limites entre a realidade e a fantasia. Perturbam-nos o sono e o sonho, mas perturbam igualmente o raciocínio lógico dos fatos, em suas causas, efeitos e implicações. Em casos extremos, como nas obras do escritor russo Dostoieskij – Crime e castigo e Os possessos, por exemplo – podem levar a um delírio mórbido e doentio. Em tais momentos, povoam a mente e a alma, deixando um rastro de alienação perigosamente vizinho à loucura. Como se pode notar, Shakespeare e Dostoiévski, antes de Sigmund Freud, colocaram em cena instintos, sentimentos e emoções que este último depois iria sistematizar e conceitualizar cientificamente.

Tanto é verdade que, em determinadas ocasiões, a pior companhia para uma pessoa vem a ser ela própria. Teme permanecer muito tempo isolada e sozinha para evitar o rumor estridente e ensurdecedor de seus fantasmas ocultos, mas sempre ativos e surpreendentemente loquazes. Escreve Dostoievskij a respeito de Raskolnikov, um de seus personagens mais atormentados: “Mas quanto mais solitário era o lugar, tanto mais intensamente ele sentia uma presença vizinha e inquietante”. E logo adiante: “Teria dado qualquer coisa no mundo para estar sozinho, mas sentia que não conseguiria permanecer só nem sequer por um minuto” (Dostoevskij, Fedor, Delito e castigo, Edizioni crescere, Milano, 2015). Do interior das entranhas, os fantasmas questionam, interrogam, interpelam o tempo todo.

Da mesma forma que na cura de um possesso por parte de Jesus, narrada nos Evangelhos (Mc 5, 1-20), também nossos fantasmas formam uma verdadeira legião, “porque somos muitos”, diz o texto. O que fazer diante de semelhantes intrusos, estranhos e às vezes selvagens? Das duas uma, ou nós aprendemos a dominá-los ou eles tomam conta de nossa existência. Com razão os denominamos “sombras”. Com efeito, basta um raio de luz sobre a sombra para que ela se volatize e desapareça por completo. Em outras palavras, um olhar direto, límpido e transparente sobre determinados fantasmas pulveriza sua presença, a ponto de reduzi-la a uma simples recordação inofensiva. Ao contrário, se não os encaramos de frente e com coragem, continuarão a ameaçar-nos pela vida afora. Neste último caso, em lugar de um tesouro cheio de pérolas brilhantes, a ser vez por outra revisitado, o passado torna-se um peso morto sobre os ombros. Verga-nos a espinha dorsal e os joelhos, extinguindo a alegria de viver. O desafio é saber se, no cotidiano, prevalecem as sombras ou a nossa vontade e perseverança em vencê-las.

A exemplo do ser humano, cada família ou grupo, cada comunidade ou sociedade, cada povo ou nação possui igualmente seus fantasmas. Em todas as expressões culturais e religiosas, anjos e demônios andam de mãos dadas. Por isso é que, quando os migrantes se deslocam em massa de um lugar para outro, levam consigo luzes e sombras, caracterizados como virtudes e vícios, valores e contra valores. Disso resulta clara a importância vital do encontro e do confronto, do intercâmbio e do diálogo como meios de depuração e purificação recíproca, o que consiste simultaneamente em recíproco enriquecimento. E resulta claro também o fato de que não é possível utilizar o discurso do respeito intercultural para encobrir determinados costumes que, no fundo, escondem patologias pessoais ou coletivas. Eis uma tarefa que nem sempre a Pastoral da Mobilidade Humana leva em devida consideração. Evidencia-se, portanto, que é impossível aceitar sem mais todo e qualquer tipo de atitude ou comportamento, seja por parte dos migrantes que chegam a um novo lugar, seja por parte da comunidade que os recebe. O choque cultural tem seu lado negativo, sem dúvida, mas abre a possibilidade de corrigir erros de ambos os lados. A mútua estranheza traz consigo mal-estar e mesmo hostilidade, mas torna-se também um espelho que ajuda a melhorar o aspecto de próprio rosto.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs . Bassano del Grappa, 15 de novembro de 2018