Artigo

Para a reflexão para o 31º DTC-B – Todos os Santos (04/11/18)

No dia 14 passado, durante a Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional, Papa Francisco declarou santos o Papa Paulo VI, Dom Oscar Romero Bispo de San Salvador, capital de El Salvador, assassinado durante a celebração de missa, e mais cinco beatos europeus.

Paulo VI, eleito Papa em 21/6/1963 e falecido em 06/8/1978, deu continuidade ao Concílio Vaticano II e sua atuação foi decisiva para colocar em prática muitos encaminhamentos do mesmo Concílio.

Dom Oscar Romero nasceu no dia 17 de agosto de 1917, no pequeno país da América Central, El Salvador. Foi ordenado padre em 1932 e em 1977 foi eleito o quarto arcebispo de San Salvador, capital daquele país. Ele denunciou as barbaridades que a violência fazia em seu país, declarando-as contra a justiça, a paz e, sobretudo, contra o Evangelho de Jesus. Suas homilias eram transmitidas por rádio e ressoavam pelos quatro cantos de seu país e para além dele. Os olhos do mundo voltaram-se para o pequeno país oprimido que, graças à coragem profética do arcebispo, se fazia visível por toda parte. As forças da violência e do mal que governavam o país não viram com bons olhos a atuação de Dom Romero. Protestaram em El Salvador, em Roma e onde mais puderam. Incomodava muito aquele arcebispo que teimava em não se recolher à sacristia e insistia em ocupar o espaço público fazendo denúncias e censurando os procedimentos da lei e da ordem. Clamava que se pusesse fim à repressão contra o povo. Foi assassinado com um rito enquanto rezava a missa no dia 24/3/1980.

Sabemos todos que esta cerimônia solene de uma canonização é apenas o reconhecimento oficial, de parte da Igreja, por seu representante maior, o Papa, de que alguém viveu de tal modo o seguimento de Cristo que se pode ter a certeza de que está na glória de Deus, serve de modelo de vida para todos os que estamos a caminho da eternidade e pode ser invocado como nosso intercessor junto a Deus. Não é que o Papa faça santos. Ele apenas declara santo quem aqui se santificou junto com muitos outros irmãos na fé. Por isso é sempre oportuno lembrar que o número de santos, além dos que estão no calendário, é incontável.

São aqueles que celebramos neste domingo, solenidade de todos os santos. A primeira leitura nos diz que diante de Cristo glorioso está uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, que ninguém pode contar. São pessoas que seguiram os princípios da justiça, da verdade, da doação às grandes causas. Cultivaram as virtudes humanas fundamentais e por isso também evangélicas. São pessoas de presença benéfica na época e no meio em que viveram. Por isso olhamos para eles com admiração por seus ensinamentos e por seus exemplos e com toda confiança pedimos sua ajuda para alcançarmos também a santidade.

Os santos são pessoas que souberam ir além de si mesmas, seguindo um ideal que as projetava para o infinito, o ideal apresentado por Cristo nas bem-aventuranças, conforme o evangelho desta solenidade. Elas são caminho de santidade, conforme o Papa Francisco na exortação apostólica “Alegrai-vos e exultai” (Gaudete et exsultate).

As bem-aventuranças nos dão o retrato do próprio Cristo e apresentam o ideal para todos os seus seguidores. A primeira e a oitava trazem uma certeza: bem-aventurados os pobres em espírito e os que são perseguidos por causa da justiça porque deles é o Reino dos céus. Outras seis apresentam uma promessa: os aflitos serão consolados, os mansos possuirão a terra, os que têm fome e sede de justiça serão saciados, os misericordiosos alcançarão misericórdia, os puros de coração verão a Deus, os pacíficos serão chamados filhos de Deus. Por fim, há a bem-aventurança dos que são perseguidos por causa de Cristo.

Os santos percorreram este caminho das bem-aventuranças e alcançaram a felicidade plena, completamente diferente daquele que o mundo oferece.

Ao festejar os santos do céu nós louvamos a Deus porque nos assume como filhos e de herança nos dá a vida eterna. São João, na segunda leitura, nos lembra de que somos chamados filhos de Deus, mas ainda não se manifestou tudo o que seremos. Estaremos junto dele para toda a eternidade. Por isso mesmo, nesta solenidade, renovamos nossa esperança, porque apesar das nossas fraquezas, dificuldades e obstáculos nossa meta é a eternidade feliz junto de Deus.

Ao festejar os santos do céu, lembramos também os santos que andam ao nosso lado, sem esquecer que nós podemos e devemos ser santos para quem caminha conosco nesta vida. Lembrando que todos somos chamados por Deus à santidade. No Antigo Testamento, Ele diz: sede santos porque eu, vosso Deus, sou santo. Cristo nos diz: sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito. Um ideal extremamente elevado. Mas só vale a pena viver por um ideal pelo qual valha a pena morrer.

E como alcançar este ideal?

Os santos nos mostram como chegar à santidade. Um ou outro fez alguma coisa extraordinária, mas a absoluta maioria fez extraordinariamente bem as pequenas coisas de cada dia.

Entre os santos também encontramos representantes de todos os grupos humanos, leigos, religiosos, padres, bispos, papas, doutores e analfabetos. Alguns se destacaram na reflexão teológica, ensinaram com profundidade as verdades da fé, como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, São Boaventura. Mas encontramos também os que não tinham nenhum estudo, como São Martinho de Lima, o porteiro e enfermeiro dos dominicanos, em Lima, no Peru, aqui na América Latina ou São Benedito o Negro, o cozinheiro dos capuchinhos na Itália. Encontramos também um sapateiro, São Crispin, um agricultor, Santo Isidoro. Outros foram bispos e papas admiráveis. Entre eles, apenas para citar um papa recente: São Pio X, que conduziu a Igreja de 1903 a 1914. Há os que viveram aqui em nossa terra, como Madre paulina, Frei Antonio de Santana Galvão, São Roque Gonzáles, Santo Afonso Rodrigues e São João del Castillo ou os beatos Pe. Manuel e seu coroinha Adílio. Entre os santos encontramos adolescentes e jovens como Santa Maria Goretti, São Tarcísio, coroinha dos primeiros tempos da Igreja, São Luiz Gonzaga, que morreu aos 21 anos, contagiado pela epidemia, a cujas vítimas ele servia com total dedicação. Encontramos também venerandos anciãos de mais de 100 anos como São João evangelista ou o abade Santo Antão.

Eles realizaram e nós podemos realizar o ideal da santidade na fidelidade aos princípios do Evangelho, expresso nas bem-aventuranças e sustentados por uma profunda espiritualidade, alimentada pela oração intensa, pela meditação constante da Palavra de Deus e pela participação sacramental, particularmente da confissão e da missa.

Temos o caminho e temos os modelos de santidade. Basta seguir o caminho e imitar os que o trilharam antes de nós.

 

Baixar Arquivo