Artigo

Superar a indiferença - Dom Adelar Baruffi, Bispo Diocesano de Cruz Alta

            A indiferença é o modo mais omisso e cruel nas relações humanas. “Não quero me comprometer”, “não tenho nada a ver com isso”. Humanamente esta postura é excludente e egocêntrica. Mas, em se tratando de discípulos de Jesus Cristo, a nossa relação com os sofredores tem um significado especial. O Papa Francisco instituiu o Dia dos Pobres, no terceiro domingo de novembro, que neste ano é celebrado no dia 18. Mas quem são os pobres? É um termo genérico para designar “as diversas condições de sofrimento e marginalização” (Mensagem do Santo Padre para o II Dia Mundial dos Pobres). “Este pobre grita e o Senhor o escuta” (Sl 34,7), é a motivação bíblica escolhida para este dia. O Papa nos recorda que não podemos ficar na indiferença, mas “encontrar-se”, aproximar-se dos diversos tipos de sofrimento humano. Esta postura nada tem a ver com ideologias (esta acusação, muitas vezes serve para aliviar nossa consciência por ignorar esta realidade tão próxima de nós), mas “deriva de nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados” (EG 186).

            A Sagrada Escritura nos diz que Deus se comove diante do sofrimento humano e qual Bom Pastor da humanidade, se abaixa para nos carregar nos ombros e curar nossas feridas humanas, sociais e espirituais (cf. Lc 10, 25-37). Não é verdade a objeção de que a missão da Igreja é unicamente a salvação das almas. Jesus nos testemunhou seu olhar pela pessoa humana na sua integralidade: fitava nos olhos, gastava tempo com as pessoas, perdoava pecados e curava os enfermos. “O Senhor escuta os pobres que clamam por Ele e que é bom para com os que n’Ele procuram refúgio, com o coração despedaçado pela tristeza, pela solidão e pela exclusão. Escuta os que são espezinhados na sua dignidade e, apesar disso, têm a força de levantar o olhar para as alturas, para receber luz e conforto” (Francisco). A missão da Igreja segue os mesmos passos de Jesus e, sem dúvidas, o primeiro olhar deve ser o seu cuidado espiritual, pois, nos diz o Santo Padre “que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual” (EG 200).A resposta de Deus ao pobre é sempre uma intervenção de salvação para cuidar das feridas da alma e do corpo, para repor a justiça e para ajudar a recuperar uma vida com dignidade” (Francisco).  Portanto, somos chamados a um olhar integral e preferencial com os mais pobres: “ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social” (EG 201).

             Então, o que devemos fazer? No momento em que estamos vivendo, o primeiro a fazer é, sinceramente, se converter da indiferença e do desprezo. Claro que não é obrigação dos cristãos a superação da pobreza no mundo, mas “uma gota d´água no deserto” (Francisco), para que sintam que podem contar com irmãos e irmãs. Vemos, com alegria, as muitas iniciativas existentes de caridade na Igreja e que, igualmente, muitas instituições da sociedade se organizam para esta proximidade misericordiosa. Somemos juntos. Podemos fazer muito mais. Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, que no dia de nosso batismo nos ungiu para, como Jesus, “evangelizar os pobres” (Lc 4,18). “Cada cristão e cada comunidade são chamados a serem instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe que sejamos dóceis e atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo” (EG 187). Recordemos novamente, nosso amor pelos mais pobres não é uma postura ideológica e nem porque mereçam mais do que os outros, mas o modo concerto de viver o seguimento de Cristo.