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As diversas dimensões da reconciliação na terceira noite da novena de Fátima

A chuva da noite, após o vento forte do final da tarde deste domingo, início do mês das missões e da semana nacional da vida, não impediu que número elevado de devotos de N. Sra. participasse da procissão e lotasse o Santuário na missa do terceiro dia da novena de Fátima. A missa não foi campal porque o vento da tarde causou estragos no palco que não puderam ser consertados em tempo. A celebração foi presidida pelo Pe. Maicon Malacarne, coordenador diocesano de pastoral e membro da comissão nacional de assessores da Pastoral da Juventude, com participação especial dos jovens, como já se tornou tradição no domingo da novena da Romaria.

No momento da proclamação da Palavra, os jovens entronizaram a Bíblia e antes da bênção final aspergiram os fiéis com água abençoada pelo Presidente da celebração.

Ao iniciar a homilia, Pe. Maicon saudou os jovens membros da pastoral da juventude, do Cursilho Jovem, da pastoral no Colégio Franciscano São José e na Escola Marista Medianeira, os jovens migrante e refugiados, os jovens encarcerados e outros. Falando do enfoque da noite, “Fátima, pedido de reconciliação”, ele mencionou a leitura da missa, na qual São Paulo declara que quem está em Cristo é nova criatura. Nele, tudo é novo. Mas São Paulo também exorta: deixai-vos reconciliar com Deus. A reconciliação com Deus, naturalmente, é reconciliação com as pessoas. Ligou a exortação do Apóstolo à passagem do evangelho da noite, na qual Cristo fala aos discípulos da necessidade de perdoar, de amar até os inimigos, de não julgar e não condenar os outros. Mestre e guia, Jesus vai além de todos os mestres. Ninguém apresentara ideal tão sublime e tão elevado. Para o Pe. Maicon este ideal do perdão e da misericórdia deve ser vivido também nas redes sociais, nas quais se constata muito ódio, muita raiva, muito espírito de vingança. Além da necessidade de reconciliação com Deus e com os irmãos, há a urgente reconciliação com a casa comum. O atual sistema econômico torna a natureza instrumento de uso e exploração. O mundo chora, clamando por novas relações do ser humano com ele. Relações de harmonia, reciprocidade, que acontecem na cultura do bem viver. Por fim, Pe. Maicon apontou para a necessidade de os adultos se reconciliarem com a juventude. Com ênfase, disse que não é possível os jovens não terem acolhida na Igreja e participação ativa na sociedade, sob o pretexto de que não têm experiência. Não é possível também uma cidade sem espaço para eles para o lazer, esportes e festa de forma saudável. 

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Íntegra da homilia do Pe. Maicon

Queridos romeiros e romeiras de Nossa Senhora de Fátima, de maneira especial, querida juventude aqui presente. Jovens da cidade e da roça, dos bairros, do centro e da periferia. Jovens da Pastoral da Juventude, do Cursilho de Jovens, das pastorais das escolas (Marista, São José), jovens das universidades...  De maneira muito carinhosa lembro da juventude migrante, refugiada e encarcerada!

Esse terceiro dia da novena da romaria, na noite da juventude, temos o tema: “Fátima, pedido de reconciliação”. Há 100 anos, durante a guerra, Maria se apresentava como Mãe da paz, Mãe da esperança, Mãe do fim das guerras, Mãe da novidade.

São Paulo afirma que estar em Jesus é estar imerso na novidade: “tudo agora é novo”. Deixamos para trás as “velharias” que nos fazem gente azeda, sem gosto, sem mel, para vivermos esse encontro e essa alegria que muda tudo. Para que isso aconteça, é necessário, diz a carta aos Coríntios, “deixar-se reconciliar com Deus”. Reconciliar-se com Deus, logicamente, é reconciliar-se também com as pessoas. Não se pode separar.  Jesus, como mestre e guia, distancia-se de todos os rabis do seu tempo: não só contrapõe o amor ao ódio, mas exige que o amor dos seus discípulos se concentre exatamente sobre aqueles que os odeiam: amai os vossos inimigos! Jamais um mestre ousara propor um ideal de vida tão exigente e sublime. Não se trata de um amor abstrato, mas de um amor que se concretiza, dia a dia, em inúmeros pequenos gestos, que são a prova da sua autenticidade. Seria ridículo, sob o ponto de vista de Jesus, amar só aqueles que nos amam. É muito pouco!

Falo isso também das redes sociais, do mundo virtual – quanto ódio dispensado! Quanto tom de vingança, quanta raiva, quanta acidez com quem não pensa como nós, em comentários, em postagens. Frases que vão exatamente no caminho contrário a um mundo reconciliado. Reconciliação é caminho de escuta, de diálogo, de paz, de amor... não para sermos todos iguais, mas justamente, para sabermos conviver entre diferentes. Na diferença mora a potência da reconciliação!

Queridos jovens e queridos romeiros – há uma outra reconciliação urgente e necessária: com nossa casa comum, nossa mãe terra. O sistema que vivemos nos força ao descaso, a tornar a natureza apenas um instrumento de lucro e de uso. É urgente reconciliar-se com ela. O mundo chora. A falsa ideia de desenvolvimento está nos levando a ruína. Muitos autores tem chamado atenção para novas relações Ousamos propor aqui a antiga, ancestral, mas sempre nova cultura do bem viver, que pauta uma nova relação com o mundo. Relações de harmonia, de reciprocidade, de solidariedade. É preciso abrir as portas, é preciso abrir os braços para formas alternativas de viver. É preciso, com a possibilidade de não termos mais tempo, imaginar e viver “novos mundos”. Na espiritualidade Cristã, em Jesus, somos portadores da novidade: “tudo é novo”, repito conforme São Paulo. A cultura do bem viver não é nova, do ponto de vista histórico, mas é uma novidade quando ela nos ajuda a superar a atual forma de vida. Vamos nos reconciliar com o mundo! Vamos nos reconciliar com a mãe terra. Vamos construir uma nova cultura, cultura do bem viver.

Por fim, há que se dizer para nós adultos: é necessário sempre de novo reconciliar-se com a juventude. Não é mais possível uma Igreja que não acolhe a novidade que vem na meninada. Não é possível comunidades que não escancarem suas portas para que a juventude esteja presente e atuante. Não é mais possível que no mundo do trabalho se feche as portas para jovens porque “eles não têm experiência”. Não é possível uma cidade sem lugares para a juventude viver o lazer, os esportes e a festa de uma maneira saudável e plena. A Igreja e a sociedade também precisam reconciliar-se com os jovens – deixar de acusa-los disso ou daquilo e abrir-se a essa novidade. Os jovens são guardiães da novidade divina. Reconciliar-se com eles é, justamente, reconciliar-se com Deus. E a reconciliação começa com uma boa acolhida.

Que o Deus da reconciliação e a Mãe da reconciliação nos ajudem! Amém.