Homilia

Celebração da Ceia do Senhor – Catedral

29/03/2018

Celebração da Ceia do Senhor – Catedral, 29/3/2018 Saúdo os sacerdotes, diáconos, religiosas, os irmãos e irmãs que vieram participar desta Santa Eucaristia, que marca o início do Tríduo Pascal. Nela, recordamos e celebramos a instituição da Santa Eucaristia e o Sacerdócio da Nova Aliança pelo Sumo e Eterno Sacerdote, o Senhor Jesus, o Cordeiro de Deus, antes de ser imolado na cruz em sacrifício de amor. Trago presente todos os sacerdotes diocesanos e religiosos que, através do exercício do ministério, santificam o povo de Deus; os diáconos e suas famílias, os irmãos e irmãs enfermos, seus familiares, os encarcerados e suas famílias, aqueles que atuam nas várias entidades de segurança pública, ou estão no trabalho neste momento. Recordo ainda os nossos seminaristas, com pedido a todos para que rezem por sua perseverança e assim termos os padres de que a Diocese necessita. Queridos irmãos e irmãs, o texto do Evangelho de Jo 13,1-15, que ouvimos, diz que “antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Para Jesus, amar até o fim significa introduzir os seus amigos no mistério do amor como escândalo: o amor absurdo, incompreensível, excessivo que pode nos levar para muito além das barreiras e preconceitos que nos impedem de ver a presença de Deus nos pequenos gestos de caridade, de ternura e no rosto dos caídos e excluídos à margem do caminho. O Senhor Jesus nos diz tudo isso tomando nas mãos uma bacia com água e começando a lavar os pés daqueles que O seguiram até aquele momento, para confortá-los, animá-los e prepará-los para um caminho mais longo que está sempre à nossa frente e jamais atrás de nós: “Assim devereis comer o cordeiro: com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão... (Ex 12,11). Diante da proximidade da sua gloriosa paixão, quando o diabo já havia persuadido Judas, Jesus prepara os seus como ele mesmo foi preparado e assim “começou a lavar os pés dos discípulos” (Jo 13,5). Pedro resistiu a deixar o Senhor lavar os seus pés. Quantas vezes, queridos irmãos e irmãs, tivemos a atitude de Pedro diante do Senhor, que, com amor e compaixão, se abaixou para lavar não os nossos pés, mas a nossa alma, o nosso coração com a sua misericórdia. Temos a tentação da soberba e do egoísmo que nos impede de ouvir a voz do Senhor que nos diz: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde, compreenderás” (Jo 13,7). O amor não é jamais uma verdade agora, mas depois. O amor verdadeiro é aquele que consegue ser muito mais do que uma lembrança, ou uma memória do passado: “Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor” (Ex 12,14); “Fazei isto em minha memória” (1Cor 11,24). O Senhor e Mestre nos revelou o segredo da sua vida e nos indicou o caminho: para amar segundo o coração do Pai, é preciso estar em condições de lavar os pés uns dos outros. Isso significa estar em condições de amar o caminho do outro, de ajudá-lo e sustentá-lo, para que não esmoreça antes de atingir a sua meta, a casa do Pai. Não podemos caminhar na vida sem sujar os pés. Não podemos crescer no amor sem nos abaixarmos aos pés do outro, até sujarmos as mãos para o outro. Lavar os pés uns dos outros significa abaixar-se sobre a recíproca pequenez para poder cuidá-la e preservá-la em vista do caminho. Lavar os pés uns dos outros é um contínuo exercício para não se viver um amor abstrato, sem gestos concretos, mas que cuida da vida e da sua dignidade. O Senhor Jesus nos indicou o modo mais adequado para celebrar em espírito e verdade. Como Pedro, sempre “depois”, entendemos o amor que se doa até as últimas consequências, sendo que o coração é que intui os gestos. Como os nossos pais, também nós hoje podemos dizer: “É a Páscoa do Senhor” (Ex 12,11), mas toda passagem de Deus é marcada por sangue, ou seja, pela necessidade de dar a vida e de colocar-se a caminho longe das nossas “amadas” seguranças. O apóstolo São Paulo nos lembra: “O que recebi do Senhor, foi isso que eu vos transmiti: Na noite em que foi entregue...” (1Cor 11,23). Na celebração da Eucaristia podemos recordar a que preço cada um de nós foi resgatado. Assim, os gestos e as palavras que repetimos durante a celebração realizam no tempo aquilo que o Senhor nos deu inteiramente no momento da sua oferta pascal. Através da celebração nos mantemos suspensos entre tempo e eternidade, entre promessa e cumprimento “até que Ele venha”. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.