Homilia

Corpus Christi – 2018 (31 de maio, Catedral São José)

31/05/2018

Corpus Christi – 2018 (31 de maio, Catedral São José) Saúdo os sacerdotes, os diáconos, os irmãos e irmãs que estão celebrando conosco esta Solenidade do “Corpus Christi” aqui na Catedral São José. Neste momento de apreensão e incertezas na nossa realidade nacional, queremos colocar diante do Senhor a vida do povo brasileiro, com suas dores, frustrações e esperanças. A Solenidade que estamos celebrando nos remete ao tempo pascal quando recordamos que: “O Senhor Jesus Cristo, no admirável sacramento da Eucaristia, nos deixou o memorial da sua Páscoa”. A Igreja Católica no Brasil, neste Ano Nacional do Laicato, com olhar cheio de ternura de mãe, convida seus filhos para adorar, isto é, tomar consciência da grandeza do dom que nos é oferecido, para que a obra da redenção – fruto da Páscoa de Cristo – traga sempre mais benefícios na vida pessoal e social dos seus filhos e filhas que vivem neste grande País. A Eucaristia é para a Igreja a garantia da ligação com o seu Senhor. Na verdade, a partir do Pentecostes, ela não cessa de celebrar a Eucaristia até o dia do seu ingresso no banquete do Reino. Existe uma profunda ligação entre a contemplação do Deus amor e o Cristo presente no sacramento. A Eucaristia é, na verdade, o meio – sacramento – através do qual a vida de Deus é derramada na nossa própria vida, a ponto de fazer da Igreja o corpo de Cristo, por meio do corpo místico de Cristo. Como diz Éfrem, o Sírio: “O fogo e o Espírito estão no nosso batismo, mas também no cálice estão o fogo e o Espírito. Quando a Igreja nos convida a nos colocarmos numa relação particular com o mistério da Eucaristia, o faz na esperança de que cada batizado possa ter a graça de alimentar a sua vida espiritual, a sua fé, a sua proximidade com o Senhor Jesus, tomando consciência e ratificando o caminho de uma vida errônea diante deste dom que nutre e fortifica a vida de todo batizado. Mas, quantas vezes, corremos o risco de esquecer, ou, por fraqueza na fé, deixar de alimentar a nossa comunhão com o Senhor, com o Pão da Vida, como nos recordam as fortes palavras de Santo Agostinho: “O mistério que vós sois está nas vossas mãos”. A Eucaristia é o sacramento pelo qual aprendemos a viver como Cristo, doando a vida e amando até o fim (cf. Mc 14,13;15 – Jo 13,1). Através da Eucaristia, o mesmo Deus – em Cristo Jesus – se coloca em nossas mãos, entra no nosso corpo para que possa assemelhar-se ao seu e fazer-se uma só coisa com todos os irmãos e irmãs. Na verdade, comungar o Cristo ressuscitado significa fazer entrar em nós uma semente de vida incorruptível, que deseja encontrar na nossa vida o terreno bom e fértil no qual produzir frutos em abundância. A semente da ressurreição colocada dentro do nosso corpo quer ser em nós semente de “imortalidade”, como escreveu Santo Inácio de Antioquia e isto “em virtude do próprio sangue” (Eb 9,12). Este fermento fará a sua obra somente quando a nossa vida for uma vida de ressuscitados, ou seja, marcada pela mesma lógica do Cristo: a auto-doação, o dom total de si, o deixar-se tomar na forma de um alimento e de uma bebida. Comer e olhar para ser absorvido e absorver uma presença do Mistério que nos transforma, em comunhão com todos os irmãos e irmãs, no mesmo corpo de Cristo, no caminho rumo à unidade. Um Deus que aceita ser colocado nas nossas mãos não deixa de esperar de nós a mesma coisa: que tenhamos a confiança de nos colocarmos e nos abandonarmos nas mãos de um Pai misericordioso, que acolhe, num abraço de ternura e compaixão, os seus filhos e filhas, nas alegrias e prantos, nas derrotas e vitórias da vida. A presença de sangue acompanhou a vida cultural e cultual de Israel, e de certa forma traz uma ligação com a Páscoa. A aliança pascal foi renovada no Sinai quando Moisés “pegou o sangue e aspergiu o povo” (Ex 24,8), lembrando a aliança que o Senhor tinha feito com o povo, na terra da escravidão, mas que deveria ser mantida durante o caminho do êxodo e também ao chegar na terra prometida. Manter a aliança com o Senhor, significa ouvir a sua Palavra, e deixar que ela oriente a nossa vida, de povo de Deus, de peregrinos famintos e saciados com o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia – Cristo Jesus. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.