Homilia

Homilias de Dom Jose na Semana Santa 2018

25/03/2018

Homilias de Dom Jose na Semana Santa 2018Domingo de Ramos – 25/3/2018Saúdo os sacerdotes, os diáconos, os irmãos e irmãs que estão participando desta celebração eucarística aqui na Catedral e também aqueles que nos acompanham através da Rádio Difusão. Com afeto e estima, saúdo os enfermos, seus familiares e os profissionais que atuam na área da saúde. A liturgia deste domingo nos convida a aclamarmos o Senhor, como outrora fez o povo nas ruas da cidade Santa de Jerusalém, que estava pronta para celebrar a Páscoa da Antiga Aliança, mas acolhe o Cordeiro do sacrifício da Nova Aliança, estendendo seus mantos e ramos, recebendo com júbilo o Cristo, o Bendito de Deus Pai, que, através da sua Paixão e morte na Cruz, selaria a Nova Aliança, entre Deus, Pai criador, e a humanidade. Uma Aliança consumada não por sacrifícios e sangue de animais, mas por um amor sem limites, que faz da vida uma oferenda a Deus, no altar da Cruz.Neste Ano Nacional do Laicato, a Campanha da Fraternidade, com o tema: “Fraternidade e superação da violência”, nos leva a refletirmos sobre uma realidade que constantemente abre feridas no coração de tantos irmãos e irmãs da nossa sociedade brasileira. Não podemos, em nome do Evangelho e da nossa fé, permanecermos na indiferença, ou justificarmos esta realidade de dor diante dos olhos de Deus, que ofereceu ao mundo seu amado Filho, Cordeiro imolado pelos nossos pecados, para que tivéssemos vida e vida em abundancia. Com a celebração da liturgia deste domingo, nós também somos chamados a entrar num modo novo e único no mistério pascal de Cristo. Os ritos que iremos celebrar durante a Semana Santa, à luz das diversas leituras da Palavra de Deus, querem nos ajudar na nossa conversão a partir do nosso silêncio interior. Queremos escutar a voz do “Senhor, que, na agonia da cruz, grita” aos nossos ouvidos e ao nosso coração para respeitarmos e cuidarmos da vida como dom precioso de Deus.As palavras do livro do profeta Isaías: “O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida... Ofereci as costas para me baterem... não desviei o rosto dos bofetões...” (Is 50,4-7), nos revelam o Servo sofredor, humilde e obediente ao Pai, mas humilhado pela violência que habita no coração das pessoas humanas em todos os tempos. O servo e o discípulo do Senhor são as duas figuras fundamentais para compreendermos o mistério daquele que se deixa humilhar sem jamais perder a sua dignidade. Queridos irmãos e irmãs, a cruz de Cristo resplandece como uma manifestação que põe fim aos privilégios, indicando que devemos abrir-nos sempre mais à solidariedade e à compaixão. No mistério pascal contemplamos o auge de todos os abaixamentos do Verbo que se tornam um estilo inconfundível dos seus discípulos. Humilhar-se é próprio de um coração que ama até esquecer-se de si mesmo, mas sem jamais se desumanizar. A alegria do ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado entusiasticamente com “Hosana”, se transforma depois de alguns dias em um silêncio sufocado e quase cúmplice diante dos gritos “de crucifica-o”. Escutar novamente a primeira narração da paixão escrita por São Marcos significa entrar no drama da rejeição do amor, não como espectadores de um drama teatral, mas como participantes de uma causa que envolve a nossa vida e a nossa fé. Cada um dos personagens da Paixão do Senhor nos fala de algo que está no nosso coração, trazem para fora o nosso desejo de vermos uma sociedade pacificada, solidária e comprometida com o cuidado da vida e da Casa Comum, mas também o nosso medo, que nos impede de nos envolvermos na construção de uma cultura da paz. Este medo nos faz fugir da realidade, nos leva a vivermos na indiferença, achando que outros trarão soluções prontas, sem precisarmos nos envolver.Não é este o caminho que o Senhor Jesus nos aponta através da sua Paixão. Ele nos convida a abrirmos os olhos do coração, para desamarrarmos em nós a liberdade de amar, para podermos superar a violência que nasce da falta de amor a Deus e ao próximo. Um amor que é capaz de ultrapassar a barreira do egoísmo e da indiferença, para cuidar e proteger a vida em todas as realidades sociais e institucionais.Queridos irmãos e irmãs, saibamos, no peregrinar deste mundo, saciar os sedentos que encontrarmos ao longo do caminho com a água da vida, que jorra através do amor, da solidariedade, da justiça e da caridade. Saibamos deixar de lado o vinagre do azedume, fermentado através das intrigas, das calúnias, da falta de perdão e reconciliação, que podem transbordar de um coração que fechou as portas para o amor e a misericórdia de Deus.Convido a todos vocês aqui presentes e aqueles que nos acompanham através da Rádio Difusão e outros meios de comunicação a celebrarmos e vivermos intensamente esta Semana Santa, para nos alegrarmos e cantarmos com os anjos do céu o “glória” da Ressurreição do Senhor na Páscoa que iremos celebrar.Que a Virgem Maria, Senhora de Fátima, e São José intercedam junto ao Senhor para que abençoe com generosidade vocês, suas famílias, seus empreendimentos e seus projetos.Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo..Missa do Crisma – Catedral, 28/3/2018Saúdo o bispo emérito, Dom Girônimo, o Pe. Cleocir Bonetti, Vigário Geral, o Pe. Maicon Malacarne, Coordenador de Pastoral, o Pe. Antonio Valentini, Chanceler da Cúria, o Pe. Alvise Follador, pároco da Paróquia Catedral São José, que nos acolhe nesta noite; através deles saúdo todos os sacerdotes, os diáconos, religiosas, religiosos e seminaristas. Saúdo os irmãos e irmãs aqui presentes, lembrando com carinho aqueles e aquelas que por amor a Cristo Jesus e aos irmãos estão envolvidos nas pastorais e movimentos da nossa Igreja Diocesana, os participantes do coral Nossa Senhora de Fátima, com seu maestro Pe. Sala. Com espírito de comunhão, acolhemos todos vocês que vieram celebrar conosco esta Santa Eucaristia, a “Missa do Crisma”, expressão de comunhão do bispo com o seu presbitério, e uma oportunidade para manifestarmos gratidão a Deus pelo dom da vocação episcopal, sacerdotal e diaconal, com a qual fomos revestidos pela graça de Deus, apesar das nossas fragilidades. Queridos irmãos e irmãs, na Igreja que é “a casa e escola de comunhão” e que “tira a sua unidade da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o presbítero é chamado a ser “o homem da comunhão”. O espírito de comunhão baseia-se no fato de que a Igreja, enquanto povo convocado por Cristo, é chamada a viver, e vive desde suas origens, uma forte experiência de vida comunitária (At 2,42). Deve-se, portanto, considerar que, ao receberem a ordem do presbiterato, os sacerdotes “estão unidos entre si em uma íntima fraternidade sacramental” e na diocese formam um só presbitério, no qual cada presbítero é parte de uma família – a família presbiteral.Concluímos o tempo da Quaresma para celebrarmos a Páscoa do Senhor. Foi tempo com forte apelo de conversão, dirigido não só aos leigos e leigas, mas também ao nosso coração de pastores do rebanho. Estimados sacerdotes e diáconos, sei que foram dias de intenso trabalho no vosso ministério. Visita aos enfermos, que são em número sempre maior na nossa sociedade, atendimento aos que procuraram o Sacramento da Reconciliação, celebrações, reuniões, etc. Quanto trabalho e entrega de vós mesmos que fazeis no exercício diário do vosso ministério. A vida do sacerdote deve ser caracterizada por uma disponibilidade permanente à vontade de Deus, seguindo o exemplo de Cristo. Isso implica uma contínua conversão do coração, que nos dá a capacidade de ler a vida e os fatos à luz da fé e, particularmente, à luz da caridade pastoral, para um dom total de si à Igreja segundo o desígnio de Deus (Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis).Durante as celebrações da Semana Santa, fazemos memória da instituição do Sacerdócio da Nova Aliança, marcada não pelo sangue de animais, mas pelo sangue de Cristo Jesus, sacerdote, profeta e rei, imolado na cruz como cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O vosso ministério sacerdotal, às vezes tão incompreendido, está ligado ao sacerdócio de Cristo, vítima que é também oferenda ao Pai. Através das vossas mãos consagradas, ofereceis a Deus o sacrifício da eucaristia, dele alimentais a vossa fé, e alimentais o povo de Deus que peregrina para a casa do Pai, com o Pão da Palavra e o Pão da vida, Cristo Jesus.  Queridos sacerdotes e diáconos, se às vezes a dor da incompreensão bater à porta do vosso coração, recordai-vos das palavras do profeta Isaías: “O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem, para curar os corações aflitos... consolar os tristes... dar uma coroa aos aflitos em vez de cinza... Todos os que os virem hão-de reconhecê-los como a linhagem abençoada pelo Senhor (Is 61, 1-9). Isaías se reconhece impuro diante de Deus, mas é purificado nos lábios com o fogo tirado do altar. Este fogo não queima, mas habilita Isaías para ser profeta, homem de Deus a serviço do Senhor. Aquele que nos ama e nos purificou dos nossos pecados com o seu sangue fez de nós sacerdotes para estarmos a serviço do Reino junto ao povo de Deus.A dignidade do ministério sacerdotal não está ligada ao lugar ou ao cargo e às funções que exercemos, na vida da Igreja ou na comunidade de fé, mas na docilidade com que nos colocamos na escuta de Deus e ao serviço da Igreja e dos irmãos. O Papa Francisco nos recorda que não podemos perder de vista as nossas raízes, “para o que nos sustenta no curso do tempo, nos sustenta no curso da história para crescer rumo ao Alto e dar fruto. Sem raízes, não há flores, não há frutos. Dizia um poeta que tudo aquilo que a árvore tem de florido provém da parte dela que está debaixo da terra, das raízes. As nossas vocações sempre terão esta dupla dimensão: raízes na terra e coração no céu. Quando falta uma das duas, algo começa a correr mal e a nossa vida pouco a pouco definha (cf. Lc 13, 6-9), como definha uma árvore que não tem raízes... Devemos recordar que a nossa vocação é rica de memória que sabe reconhecer que nem a vida, nem a fé, nem a Igreja começaram com o nascimento de qualquer um de nós: a memória olha para o passado a fim de encontrar a seiva que, ao longo dos séculos, irrigou o coração dos discípulos e, assim, reconhece a passagem de Deus pela vida do seu povo. Memória da promessa que Ele fez aos nossos pais e que, perdurando viva no meio de nós, é causa da nossa alegria e nos faz cantar: «O Senhor fez por nós grandes coisas; por isso exultamos de alegria» (Sl 126/125, 3 - Discurso do Papa Francisco no encontro com sacerdotes e consagrados, 20 de janeiro de 2018 – Trujillo – Peru).Que a Virgem Maria, Senhora do Rosário de Fátima, Mãe de Jesus Cristo, sacerdote, profeta e rei, da Igreja e de todo sacerdote, e São José, intercedam junto ao Pai por copiosas benções sobre vós, sacerdotes e diáconos. Sobre as nossas famílias, berço e escola de vocações, sobre os chamados à vocação matrimonial, sacerdotal e religiosa, neste Ano Nacional do Laicato e na Ação Evangelizadora “cada comunidade, uma nova vocação”, que abriremos em nossa Diocese no final desta celebração.Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo..Celebração da Ceia do Senhor – Catedral, 29/3/2018Saúdo os sacerdotes, diáconos, religiosas, os irmãos e irmãs que vieram participar desta Santa Eucaristia, que marca o início do Tríduo Pascal. Nela, recordamos e celebramos a instituição da Santa Eucaristia e o Sacerdócio da Nova Aliança pelo Sumo e Eterno Sacerdote, o Senhor Jesus, o Cordeiro de Deus, antes de ser imolado na cruz em sacrifício de amor. Trago presente todos os sacerdotes diocesanos e religiosos que, através do exercício do ministério, santificam o povo de Deus; os diáconos e suas famílias, os irmãos e irmãs enfermos, seus familiares, os encarcerados e suas famílias, aqueles que atuam nas várias entidades de segurança pública, ou estão no trabalho neste momento. Recordo ainda os nossos seminaristas, com pedido a todos para que rezem por sua perseverança e assim termos os padres de que a Diocese necessita.Queridos irmãos e irmãs, o texto do Evangelho de Jo 13,1-15, que ouvimos, diz que “antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Para Jesus, amar até o fim significa introduzir os seus amigos no mistério do amor como escândalo: o amor absurdo, incompreensível, excessivo que pode nos levar para muito além das barreiras e preconceitos que nos impedem de ver a presença de Deus nos pequenos gestos de caridade, de ternura e no rosto dos caídos e excluídos à margem do caminho.O Senhor Jesus nos diz tudo isso tomando nas mãos uma bacia com água e começando a lavar os pés daqueles que O seguiram até aquele momento, para confortá-los, animá-los e prepará-los para um caminho mais longo que está sempre à nossa frente e jamais atrás de nós: “Assim devereis comer o cordeiro: com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão... (Ex 12,11).Diante da proximidade da sua gloriosa paixão, quando o diabo já havia persuadido Judas, Jesus prepara os seus como ele mesmo foi preparado e assim “começou a lavar os pés dos discípulos” (Jo 13,5). Pedro resistiu a deixar o Senhor lavar os seus pés. Quantas vezes, queridos irmãos e irmãs, tivemos a atitude de Pedro diante do Senhor, que, com amor e compaixão, se abaixou para lavar não os nossos pés, mas a nossa alma, o nosso coração com a sua misericórdia. Temos a tentação da soberba e do egoísmo que nos impede de ouvir a voz do Senhor que nos diz: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde, compreenderás” (Jo 13,7). O amor não é jamais uma verdade agora, mas depois. O amor verdadeiro é aquele que consegue ser muito mais do que uma lembrança, ou uma memória do passado: “Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor” (Ex 12,14); “Fazei isto em minha memória” (1Cor 11,24). O Senhor e Mestre nos revelou o segredo da sua vida e nos indicou o caminho: para amar segundo o coração do Pai, é preciso estar em condições de lavar os pés uns dos outros. Isso significa estar em condições de amar o caminho do outro, de ajudá-lo e sustentá-lo, para que não esmoreça antes de atingir a sua meta, a casa do Pai.Não podemos caminhar na vida sem sujar os pés. Não podemos crescer no amor sem nos abaixarmos aos pés do outro, até sujarmos as mãos para o outro. Lavar os pés uns dos outros significa abaixar-se sobre a recíproca pequenez para poder cuidá-la e preservá-la em vista do caminho. Lavar os pés uns dos outros é um contínuo exercício para não se viver um amor abstrato, sem gestos concretos, mas que cuida da vida e da sua dignidade. O Senhor Jesus nos indicou o modo mais adequado para celebrar em espírito e verdade. Como Pedro, sempre “depois”, entendemos o amor que se doa até as últimas consequências, sendo que o coração é que intui os gestos.Como os nossos pais, também nós hoje podemos dizer: “É a Páscoa do Senhor” (Ex 12,11), mas toda passagem de Deus é marcada por sangue, ou seja, pela necessidade de dar a vida e de colocar-se a caminho longe das nossas “amadas” seguranças. O apóstolo São Paulo nos lembra: “O que recebi do Senhor, foi isso que eu vos transmiti: Na noite em que foi entregue...” (1Cor 11,23). Na celebração da Eucaristia podemos recordar a que preço cada um de nós foi resgatado. Assim, os gestos e as palavras que repetimos durante a celebração realizam no tempo aquilo que o Senhor nos deu inteiramente no momento da sua oferta pascal. Através da celebração nos mantemos suspensos entre tempo e eternidade, entre promessa e cumprimento “até que Ele venha”.Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo..Paixão do Senhor – 2018Saúdo todos os presentes, que, em clima de fé e recolhimento interior, vieram celebrar a Paixão do Senhor, nesta Sexta-feira Santa. Queremos refletir sobre a vida e o amor que não deixam de amar, mesmo diante da brutalidade da violência que tira a vida. Um amor que vence o ódio e gera vida e esperança, porque aberto ao perdão e à compaixão. Um amor que é capaz de tocar o coração também daqueles que cometem violência, apontando-lhes o caminho da cura interior que lhes dará a paz dos filhos e filhas amados de Deus. “Tudo está consumado!” (Jo 19,30) Foram estas as últimas palavras do nosso amado Senhor Jesus que morreu em paz. Uma paz que o nosso coração, a nossa sociedade e a humanidade ainda têm dificuldade de construir, por buscarmos soluções que não partem do nosso interior pacificado, mas do uso de forças que querem exprimir poder de domínio sobre a vida e a dignidade do outro. Com as palavras; “tudo está consumado”, finalmente, o Verbo Divino, que veio colocar a sua tenda no meio de nós (Jo 1,14), pode retornar ao seio do Pai depois de cumprir a sua missão: fazer que o homem e a mulher, que, por instigação da serpente, tinham se acusado mutuamente diante do seu Criador (Gn 3), agora se acolhem um ao outro tornando-se uma casa para Deus: “Mulher, este é teu filho...Esta é tua mãe”! (Jo 19,26-27). O evangelista São João não pôde dar espaço às trevas que envolviam o Calvário, mas estendeu o mais luminoso dos véus de piedade com estas esplêndidas palavras: “Dessa hora em diante, o discípulo a acolheu consigo” (Jo 19,27).Do alto da cruz, o Senhor Jesus volta o seu olhar para cada um de nós. Somos nós que, como os discípulos de outrora, lhe perguntamos: “Mestre, onde moras”? (Jo 1,38), e finalmente hoje nos é indicada a nossa casa no seu coração transpassado pela espada. Somos nós que, como sua mãe, temos solicitado: “Eles, não têm vinho” (Jo 2,3), e hoje podemos – sob a cruz – recolher o fruto especial e inebriante que sai do seu coração transbordante. Eis a hora esperada em que o vinho sai como sangue e água, eis a verdadeira hora, em que o Mestre nos revela o seu esconderijo. Nesta hora bendita, o Esposo da nossa humanidade se adormenta sobre o lenho da cruz. A casa onde mora o Mestre é a ternura: acolher-se e cuidar-se uns dos outros como uma mãe cuida de um filho e um filho de sua mãe na gratuidade de um amor divino e humano é o ensinamento e o testemunho deixado por Jesus. Toda a vida de Jesus entre nós foi consumida para construir uma casa para a humanidade, que fosse, em tudo, semelhante àquela em que vive a Trindade, que é o “trono da graça” (Hb 4,16).“Tudo está consumado”! Por isso, o Senhor não pôde permanecer mais tempo conosco e nos sussurra mais uma vez com um amor ainda maior: “É melhor para vós que eu vá...” (Jo 16,7) e, inclinando a cabeça, efundiu seu espírito sobre o mundo inteiro; efunde seu espírito, agora, sobre nós que, por Ele, o mais belo entre os filhos do homem, somos chamados a não vivermos mais para nós mesmos, mas para os outros, através dos gestos de amor compaixão, a caridade que revelam profunda comunhão com o Senhor, manifestada nas relações pacíficas e fraternas com os irmãos e irmãs. Do mistério da cruz de Cristo, podemos aprender que em cada ação a ternura seja a nossa última palavra e assim o Pai será glorificado em nós como no seu Filho. Cada vez que nos afastamos do caminho da ternura, o que é possível na mais crua desumanidade, tornamos “vã a cruz de Cristo” (1Cor 1,17). Se assim for, onde encontraremos repouso?O homem das dores que conhece bem o sofrer, apresentado pelo profeta Isaías, recebe rosto e nome naquele que é conduzido ao Gólgota, tornando-se o ícone do Filho que nos revela a atenção do Pai por cada criatura, sobretudo quando é desprezada e diminuída a sua dignidade. O profeta Isaías nos ajuda a contemplarmos no rosto do Senhor crucificado cada traço de sofrimento da nossa humanidade em caminho, para encontrar a sua plena dignidade numa sociedade pacificada e pacificadora, que exale a paz da fraternidade dos filhos e filhas de Deus.Queridos irmãos e irmãs, estamos vivendo esta celebração para entrar no mistério da paixão do Senhor e dela tomar parte. Queremos nos envolver até podermos repetir em nosso coração que o Filho amado do Pai quis viver, sofrer e morrer “como nós” e por nós. Por isso, não devemos ter vergonha dos nossos sofrimentos, mas da nossa falta de amor, que nos impede de cuidar com ternura da nossa vida e da vida das pessoas que encontramos no nosso peregrinar neste mundo. Devemos ter vergonha da falta de esperança, que gera em nós e na sociedade um pessimismo estéril, impedindo-nos de ver as ações do bem acontecendo, através da participação silenciosa, mas comprometida com a paz, o amor pela vida e a dignidade de tantas pessoas. Como o “discípulo”, a mãe e as outras mulheres que estavam junto à cruz, escutemos o Senhor Jesus que fala ao nosso coração: “Tenho sede”. No rosto sofrido do Crucificado, o Pai nos revela a sua sede de nós: sede daquele amor que trazemos no mais profundo do nosso coração. No mistério luminoso da cruz nos são explicadas até a dor e a morte, sob a forma de ternura de um amor extremo, de quem amou-nos até o fim.Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo..Procissão Sexta–Feira Santa – 30/3/2018Saúdo os sacerdotes e diáconos aqui presentes, o pastor Orlando, da Igreja Batista e presidente do Conselho de Pastores das Igrejas Evangélicas de Erechim e, através dele, saúdo os pastores, pastoras, os irmãos e irmãs de todas as Igrejas Cristãs e de outras denominações religiosas, que, em espírito de fé no Senhor Jesus, estão participando nesta noite deste momento de comunhão. Saúdo as autoridades municipais aqui presentes ou representadas, e manifesto minha gratidão à administração municipal, na pessoa do Senhor Prefeito Municipal, Luis Francisco Schmidt, à Secretaria de Educação, através de sua titular Vanir Clara Bernardi Bombardelli, cumulativamente titular da Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo, por ter trabalhado com empenho para que este encontro tão significativo para o povo da nossa quase centenário município de Erechim e visitantes pudesse estar acontecendo.Hoje vivemos um dia de reflexão, lembrando o sofrimento e a morte do Senhor Jesus, o filho do Deus Altíssimo, enviado pelo Pai a este mundo para resgatar a humanidade ferida pela dor do pecado e da morte. Ele passou por este mundo fazendo o bem. Suas palavras permanecem entre nós transmitindo amor, perdão, reconciliação. Com sua vida, testemunhou a compaixão e a misericórdia pelos caídos.Nem a violência dos açoites, nem os espinhos, nem os cravos que perfuraram seus pés e mãos, nem a espada que lhe transpassou o corpo mataram seu amor por cada um de nós. Sobre a cruz, na verdade, cumprem-se as palavras que ele progressivamente havia pronunciado no Evangelho. A cruz é o lugar do qual atrai o mundo todo a si (Jo 12,32). É o lugar onde manifesta a sua realeza como serviço (Jo 19,37). Ela é o lugar do qual Jesus salva os seres humanos do veneno do pecado que destrói a paz e fomenta a violência, que tira a vida de tantos irmãos e irmãs em nosso país, dos quais uma alta porcentagem é de jovens. Contemplando Cristo na cruz, vemos realizadas as palavras do profeta Isaías: “Foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas. Todos andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes” (Is 53,5-6). Sobre a cruz Jesus é plenamente o Bom Pastor, segundo a descrição que ele mesmo faz de si (Jo 10). Quando oferecerá a si mesmo como sacrifício de reparação, verá uma descendência, terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele (Is 53,10), a sua paixão é oferta de si para cumprir a vontade do Pai, é livre adesão ao projeto da nossa salvação (Jo, 18,4). “Ele, o justo justificará a muitos” (Is,11): por sua paixão nos doou a justificação. A justiça de Deus, em Cristo, não justifica justiciando, mas nos tornando justos. Nisto está a esperança dos que testemunham sua fé diante da cruz. O Senhor continua a estar próximo de nós, em cada passo da nossa história. Assim, podemos contemplar o seu amor em cada gesto de bem e em cada momento de dor que marcam e perpassam o coração humano. Não estamos sozinhos. O Senhor Jesus está ao nosso lado, com o seu zelo que é bálsamo para os nossos corações e partilha solidária da nossa dor.Que a violência manifestada na Paixão do Senhor, presente também em nossa sociedade, não sufoque em nosso coração a responsabilidade e não roube a esperança de trabalharmos juntos pelo crescimento de uma cultura da paz, por uma sociedade pacificada e pacificadora, que expresse a presença do Senhor Ressuscitado, Senhor da Vida, presente no meio de nós, para que todos tenham vida e vida em abundância. Deus vos abençoe e voz proteja. Amém..Vigília Pascal – Catedral, 31/3/2018Saúdo os sacerdotes, os diáconos, as religiosas, os irmãos e irmãs aqui presentes; de modo especial, acolhemos com carinho os visitantes que vieram encontrar-se com seus familiares e amigos e celebrar com eles e conosco a Páscoa do Senhor.Queridos irmãos e irmãs, nesta noite, com o canto da proclamação da Páscoa, a Igreja desperta, com seus filhos e filhas, do silêncio do sábado santo, no qual, o Verbo que se fez Palavra fez silêncio. Tudo neste dia falava do silêncio, nos convidando a percebermos o vazio, a ausência e o abismo que pairavam sobre a terra pela morte do Senhor Jesus.Nós também, no silêncio do nosso coração, esperávamos encontrar o Ressuscitado, porque dentro de nós está viva aquela vontade de “ver Jesus” (Jo 12,21), mesmo estando ainda diante daquele túmulo escavado na rocha... O apóstolo São Pedro diz claramente que “Deus o ressuscitou no terceiro dia e quis que se manifestasse não a todo o povo, mas às testemunhas escolhidas por Deus (At 10,40-41). Do nosso coração nasce a pergunta: “Por que a eles? Porque não a nós? Porque não a mim?”Para encontrar o Ressuscitado, é necessário antes de tudo ser “testemunha do sepulcro” para poder ser capaz de carregar o peso do vazio e deixar-se interrogar pelo silêncio. Para encontrar o Ressuscitado e poder dizer como Pedro “a nós que comemos e bebemos com Ele” (At 10,41), é preciso começar dando credibilidade ao testemunho de uma pedra que foi colocada de lado para deixar passar a Vida. É preciso entrar na gruta do sepulcro e saber discernir “o sussurro de uma brisa suave” (1Re 19,12), que, como a água da fonte escondida, continua a correr e a murmurar a promessa “daquilo que nunca foi contado” (Exulte). Também nós somos chamados a sermos homens-pedra com o coração de carne, evitando, a todo custo e com todos os meios, de sermos reduzidos a homens tijolos, preocupados em construir torres e pirâmides que não agradam a Deus, mas aos homens: lembrando que os tijolos são feitos em série, mas as pedras são únicas e não são feitas pela mão do homem como diz o profeta: “Considerai a rocha de que fostes talhados, a pedreira de onde fostes tirados” (Is 51,1).Nesta noite santíssima, que é a noite nupcial por excelência, somos chamados a reencontrar a nossa origem, para olharmos novos horizontes com esperança renovada. O Senhor Jesus nos convida hoje à Ressurreição, mas ainda se esconde “nas fendas da rocha” (Ct 2,14) com o seu rosto manso e sereno; irreconhecível pela transformação sofrida, mas inconfundível pela sua voz. O coração do mistério pascal que celebramos a cada ano nos reconfirma na esperança de podermos sempre nos colocarmos a caminho, para darmos asas à nossa vida de fé. Aquilo que celebramos e aquilo que de novo escolhemos, nesta noite, renovando as nossas promessas batismais, é de ser e de querer ser “testemunhas vivas de Deus, em Cristo Jesus”. Se o sepulcro nos traz a imagem mais estática que podemos imaginar, o sepulcro vazio nos recoloca na estrada e a caminho com coragem e sem temor.Segundo o evangelista São Marcos, nenhum anjo estava à espera das mulheres na narrativa da Ressurreição. Mas somente um jovem, vestido com uma veste branca, que nos lembra as vestes daqueles que recebiam o batismo na vigília pascal. Algo aconteceu com Jesus. Estando a caminho com Ele, nosso Mestre, seguindo seus ensinamentos sem medo e com generosidade renovada, acontecerão muitas coisas bonitas também conosco. Não é necessário passar pela sombra da morte, ou fazer a experiência da escuridão do sepulcro para começar uma vida nova em Cristo. Basta abrir as portas do coração à misericórdia de Deus para experimentarmos uma vida nova de discípulos e discípulas reconciliados, revigorados e renovados na fé pelo Pão da Palavra e pelo Pão da Eucaristia. Na comunidade de fé, e não no túmulo, podemos encontrar o Senhor ressuscitado que caminha conosco, curando nossas feridas e revigorando nossas forças com amor, compaixão, ternura e esperança. “Eu sou a ressurreição e a vida”. Aleluia irmãos, o Senhor ressuscitou.Feliz Páscoa a todos..Páscoa da Ressurreição – Santuário, 1º/4/2018Saúdo o Pe. Valter, os irmãos e irmãs presentes aqui no Santuário Nossa Senhora de Fátima, e também aqueles e aquelas que nos acompanham através das Rádios, Virtual e Aratiba. Com estima fraterna, saúdo todos os sacerdotes, diáconos, seminaristas, religiosas e religiosos, seus familiares, os leigos e leigas envolvidos nas pastorais, movimentos e nas várias atividades da nossa Igreja neste ano a eles dedicado aqui em nosso País; as autoridades do poder executivo, legislativo e judiciário que atuam no território da nossa Diocese de Erexim, os agentes de segurança pública, os enfermos e seus familiares, os profissionais da área da saúde, os encarcerados e seus familiares.Queridos irmãos e irmãs, depois de vivermos, pessoal e comunitariamente, o tempo da Quaresma em preparação à celebração da Páscoa do Senhor, hoje, podemos elevar a Deus a nossa voz para cantarmos com os anjos a glória do triunfo da vida sobre a morte, da esperança contra o desespero e do amor sobre a violência e o ódio. Depois de Maria Madalena, com Simão Pedro e o discípulo amado, também nós chegamos, nesta manhã, ao sepulcro onde deveria estar o corpo sem vida do Senhor Jesus. Os discípulos procuraram entender o que tinha acontecido, e para isso precisaram recordar ou reviver as palavras pronunciadas por Ele. Dentro de nós, podemos estar buscando o modo de poder compreender o que aconteceu e o que está acontecendo ao nosso redor que revela falta de fé, indiferença no cuidado da vida e da sua dignidade.Foi difícil para os discípulos ficarem sem a companhia visível do Mestre. Precisaram aprender o caminho da comunhão, que não é limitada pelo espaço ou pelo tempo, mas é alimentada numa aliança de amor e fé, que nasce da vida entregue na cruz e da vitória da ressurreição. São Cirilo de Jerusalém, quando fala do pano que tinha sido colocado sobre a cabeça de Jesus e ficou dobrado num lugar à parte no sepulcro, diz: “É como se não tivesse tido nenhum contato com a morte, porque o corpo do Senhor é “carne sem carne”, aliás, é “carne santa”. Podemos dizer que, no momento da morte e da sepultura, o “Verbo se fez carne” (Jo 1,14) e se fez “carne santa” para dar à nossa carne e à nossa humanidade toda a esperança da sua divindade. Assim, o sepulcro assume todo o seu significado, que nos ajuda a compreendermos a ligação com a morte que se torna testemunha de algo, que a morte mesma não pode vencer, e sobre a qual não tem o poder. Por isso, a nossa invocação não pode ser outra que a dos dois discípulos viajantes a caminho de Emaús: “Fica conosco, porque já é tarde”.No contexto único deste dia de Páscoa, o apóstolo São Paulo nos exorta a “buscarmos as coisas do alto”. Não significa uma fuga da realidade, mantendo uma atitude de indiferença em relação à violência que causa tanta dor aos pais, às famílias e comunidades atingidas. Mas um compromisso de fé assumido através do discipulado, como leigos e leigas, “sal da terra e luz do mundo”, colocando a serviço do Reino a capacidade e a vontade de animar, com a energia da força pascal, o mundo em que vivemos. Não podemos deixar de nos unirmos à corrida de Pedro e do discípulo que Jesus amava. Na alegria inebriante da Páscoa de Cristo, queremos intuir com o coração antes de enxergarmos com os olhos. Somente assim seremos confirmados no nosso desejo de querer reencontrar Aquele que pensávamos ter perdido para sempre. A ressurreição do Senhor é uma lição de como o amor não pode ser algemado enquanto deixarmos para ele um lugar no nosso coração.A Páscoa do Senhor é a intuição do nosso coração formado na escola do amor na qual recebemos tudo aquilo que é necessário para o nosso caminho para a casa do Pai “através do seu nome”.Estimado irmão e estimada irmã, que a luz do Senhor ressuscitado continue iluminando o teu coração, os teus gestos de paz, amor e caridade, a vida da tua família e teus projetos por uma sociedade pacificada e pacificadora.Uma Feliz a Santa Páscoa a todos.