Voz da Diocese

A vida do trabalhador peregrino
22/07/2018


Estimados Diocesanos! A fé celebrada sem ter presente a realidade da nossa vida, da família, da comunidade e, num contexto mais amplo, os acontecimentos do nosso país e do mundo que tocam diretamente a vida de tantas pessoas, pode ser muito bonita, mas também revela uma forma egoísta de dirigir-se a Deus, sem ter presente os irmãos e irmãs que padecem com tantas provações e clamam por justiça e solidariedade.

Neste mês de julho, em várias comunidades, o povo de Deus se reúne para render graças e Deus e celebrar o dia do motorista e o dia do agricultor. A realidade da milenar profissão dos agricultores e agricultoras, que cultivam a mãe terra enfrentando os riscos climáticos e as oscilações dos mercados, tem passado por uma profunda transformação, não só pelo êxodo rural, mas principalmente pelas novas tecnologias, que, por um lado, têm ajudado a aumentar a produção, mas, de outro, também tem contribuído para excluir os pequenos, que não podem fazer grandes investimentos para acompanhar os desafios das inovações.

As novas gerações que trabalham no campo têm-se mostrado mais abertas e receptivas às novas tecnologias, oferecidas por entidades de pesquisa governamentais, cooperativas, agroindústrias e outras, que lhes possibilitam maior profissionalização no jeito de planejar, administrar, produzir e comercializar os produtos, através das suas organizações ou diretamente com o mercado consumidor.  Mas temos também uma geração, que mesmo sem entender as mudanças tecnológicas do nosso tempo, tem no coração a paixão pelo cultivo da terra, o gosto pela vida simples do campo e pela mãe natureza, com a qual comungam diariamente a partir da realidade na qual vivem.

A vida é muito dinâmica. Se, por um lado, temos os agricultores que prezam pelo silêncio e a estabilidade da vida no campo, por outro, temos os motoristas, que são os peregrinos da estrada. Mas não podemos classificá-los como peregrinos solitários, embora possam ter momentos de solidão pelos desafios que a profissão lhes impõe, de passarem dias e semanas longe do lar. São pais de família e também um número considerável de jovens, que abraçaram a profissão de serem profissionais do volante. São pessoas que estão continuamente na estrada, e levam no coração a dor da saudade da esposa, dos filhos, do aconchego do lar, da comunidade. São pessoas que não perderam a capacidade de amar, e nas estradas, diariamente, se deparam com a vida e a morte dos outros, dos amigos e às vezes com a própria. Quantas vidas são perdidas diariamente nas estradas do nosso país? Quantos pais não têm a oportunidade de conhecerem os filhos e estes de brincarem com seus pais, que eram profissionais do volante e não conseguiram fazer o caminho de volta? Quantas famílias levam no coração a dor da perda de um profissional do volante?

Celebrar o dia do motorista e do agricultor é render graças a Deus pela vida e pelo trabalho, sem esquecer, daqueles profissionais do volante que partiram, mas não conseguiram voltar para os seus. A fatalidade os fez peregrinar para a casa do Pai.

Tende todos um bom domingo.

Dom José Gislon - Bispo Diocesano de Erexim

- Dom Frei José Gislon