Voz da Diocese

Vida longa e interrogações
28/07/2018

Estimados Diocesanos! No ciclo da vida, precisamos do amor e da ternura de quem nos acolhe no mundo e nos ensina a conhecer, nos pequenos gestos e através de pequenos passos, as luzes e as sombras presentes na história da humanidade. Quando crianças, achávamos que os nossos pais eram as pessoas mais importantes da nossa vida, nos ofereciam proteção e, segurando em suas mãos nos julgávamos salvos de todo perigo. Passar alguns dias com os nossos avós, ou ter a oportunidade de visitá-los por algumas horas, já era motivo de alegria.  Mas, no curso da vida, nós crescemos, fomos nos sentindo mais seguros, dispensando aos poucos a mão paterna e materna que nos dava segurança e visitar os avós já não era um programa tão interessante. Responder às perguntas de sempre nos aborrecia e tínhamos outras prioridades para consumir o tempo.

Na medida em que fomos crescendo, começamos a ter vontade de conquistar o mundo, julgando que o nosso lar era um espaço muito pequeno para realizar os nossos grandes sonhos. Por isso, aos poucos, fomos nos distanciando não só do lar, mas também da vida das pessoas que julgávamos serem as mais importantes. Retornar ao lar, doce lar, para estar em companhia dos nossos pais, passou a ser cada vez mais espaçado, podendo chegar ao ponto de ser uma obrigação mais forçada do que uma oportunidade de encontro, para demonstrar afeto e gratidão àqueles que nos acolheram para a vida.

A nossa sociedade brasileira precisa ir assimilando os dados das estatísticas, que nos apresentam um país que num futuro próximo terá uma alta porcentagem da sua população na faixa da terceira idade. Sempre julgamos que morrer jovem ou na meia idade é uma perda para a família e a sociedade. Mas confesso que têm me questionado profundamente as atitudes de alguns familiares, que na família possuem pessoas com mais de noventa anos, ou até menos, e parecem sentir-se incomodadas pela longevidade dos seus. Parece que tem um peso para suportar, mais do que alguém para amar e cuidar.

Diante do valor sagrado da vida, não podemos seguir a lei do mercado, eficiência/produção/consumo/descarte. É triste tomarmos conhecimento, através dos meios de comunicação, de que na calada da noite, alguns familiares despejam e abandonam seus idosos diante das casas de repouso. Como sociedade, corremos o risco de acompanharmos com indiferença a violência das ruas que ceifam a vida de milhares de pessoas, todos os anos em nosso país, e no ambiente familiar lamentarmos a longevidade dos nossos avós e dos nossos pais. Onde está o valor da vida?

Tende todos um bom domingo.

Dom José Gislon - Bispo Diocesano de Erexim

- Dom Frei José Gislon