Artigo

A caridade, terceiro pilar da casa

            Continuando a reflexão dos pilares da “casa” como símbolo da vida cristã, da Igreja, afirmamos a caridade como o distintivo do ser cristão na sociedade. O amor a Deus, necessariamente se volta para o próximo. Uma profunda intimidade com o Senhor e vivência da comunhão e amizade numa comunidade de fé levam, necessariamente, aos irmãos, à vida familiar e à ecologia integral. “Sem oração não existe vida cristã autêntica. Sem caridade, a oração não pode ser considerada cristã. Quando se contempla Deus, percebe-se a beleza do pequeno e do simples, e se educa o olhar para ver as necessidades do outro” (CNBB, Diretrizes, n. 102). As questões sociais dizem respeito a todos os cristãos e não se referem, na sua origem, a opções políticas. É uma decorrência lógica de uma fé madura. Quem não tem um coração e ações misericordiosas ainda não compreendeu o que é ser cristão.

“A própria beleza do Evangelho nem sempre a conseguimos manifestar adequadamente, mas há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora” (EG 195). Nós temos clareza sobre isto. Que nenhum católico coloque dúvidas nesta verdade fundamental do evangelho de Jesus Cristo, nosso Salvador: o seu coração se movia de compaixão diante dos sofredores. Já afirmei na minha Carta Pastoral Adultos na fé, “a fé católica constitui um edifício harmônico, no qual não é possível fazer opções por algumas verdades e rejeitar outras sem cair em contradição. Não somente a adesão intelectual às verdades por Jesus Cristo anunciadas, mas a comunhão de vida, com o Senhor Ressuscitado, que veio até nós como nosso Redentor e caminha conosco. Então, a adesão à fé católica, na comunhão eclesial, não pode ser seletiva, mas integral, na busca contínua das razões pelas quais se crê. Daí também a coerência das opções pastorais e da moral. Seria uma contradição gritante seguir a Jesus Cristo e não ter um coração misericordioso, sobretudo com os pobres” (p. 57-58). Compreendemos, então, o sentido e a importância das pastorais sociais. É muito errada a compreensão da fé como algo meramente privado e intimista ou, também, como separada das opções fundamentais do mundo do trabalho, da profissão, da ética e até dos valores.

As questões sociais são amplas e pedem dos católicos um conhecimento e aprofundamento de toda a Doutrina Social da Igreja. É uma rica herança, que, fiel ao ensinamento da Tradição, atualiza e concretiza para os dramas sociais atuais o único depósito da fé. Todos os desafios do nosso tempo dizem respeito à vivência do evangelho: a defesa da vida, desde a concepção até sua morte natural, a família, o sentido da vida, os desafios ecológicos, o meio ambiente, os pobres, a violência, os jovens excluídos, a justiça no mundo do trabalho, o diálogo para superar conflitos e a busca da paz. As Diretrizes apontam o modo de tratar estas questões: “em uma postura de serviço, diálogo, respeito à dignidade da pessoa humana, defesa dos excluídos e marginalizados, compaixão, busca da justiça, do bem comum e do cuidado com o meio ambiente” (CNBB, Diretrizes, n. 104).

Esforcemo-nos para não rotular e dividir. A caridade deve nos unir sempre. Somemo-nos a todos os que, amando a Deus conseguem ver no outro sua imagem, digna de respeito e merecedor de nossa compaixão. Afinal, em Cristo formamos uma única grande família, sem muros e preconceitos.

Dom Adelar Baruffi

Bispo Diocesano de Cruz Alta