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Algumas lições da pandemia do Coronavírus - Dom Vicente Costa,  Bispo de Jundiaí (SP)

Estamos atravessando uma gravíssima crise mundial e nacional na saúde, na economia e na vida social devido ao impacto causado pela rápida propagação do “Coronavírus”. Porém, todos nós desejamos e precisamos o quanto antes superar esta crise na convivência social, na saúde, na economia e na política, embora estudos apontem que a pandemia continue a ter efeitos pelos próximos anos, enquanto não se descubra uma vacina eficaz para combatê-la.

Porém, gostaria de tirar algumas lições positivas ou descobertas desta crise que atravessamos. Como diz o Apóstolo Paulo: “sabemos que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28), ou seja, como diz o sábio ditado popular: às vezes, “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Descoberta de nossa vulnerabilidade: A “tempestade” da pandemia revelou claramente a nossa vulnerabilidade, nossas falsas seguranças. Diante de Deus, somos criaturas preciosas, mas frágeis: não somos “super-homens”, que resolvem todos os seus problemas com “a ponta dos dedos”.

Descoberta da compaixão e da misericórdia de Deus: Neste tempo de crise, muitos gritam: “Onde está o Deus a quem nos confiávamos?”. Porém, para quem crê, o silêncio de Deus Pai não é apatia, pois sente seu amor divino por nós a ponto de não livrar seu Filho da cruz e da morte por nossa salvação (cf. Rm 8,32).

Descoberta de saber criar disciplina, limites e hábitos em nossa vida: Neste tempo de maior confinamento no lar, aprendemos a valorizar mais o tempo presente, o hoje, o cotidiano, o aqui e agora, e não perder tempo com futilidades e lamentações. Isto exige disciplina e mudança de certos ritmos aos quais estávamos acostumados.

Descoberta do valor inestimável da convivência comunitária e familiar: Creio que estes tempos novos nos fizeram redescobrir o valor inestimável de conviver com os outros no trabalho, no cultivo da amizade, no respeito ao diferente. Principalmente a família ganhou um novo destaque e até aumentou a oração em família e fortaleceu-se a “Igreja nas casas”, as “Igrejas domésticas”.

Descoberta do valor da solidariedade: A dor que sofremos nesta pandemia nos irmana e nos torna mais humanos e solidários, descobrindo novas formas de praticar a caridade e as obras de misericórdia. Surgiram novos rostos de pessoas pobres e carentes e novos heróis da vida, pessoas que não deixaram a vida parar de forma alguma, principalmente os médicos, enfermeiros e profissionais de saúde, como também os jornalistas.

Descoberta da nova era digital: Neste distanciamento social, para muitos os meios mediáticos da internet foram instrumentos muito valiosos de comunicação, de transmissão de notícias e de demonstração de afetos. É uma descoberta que certamente ficará no futuro.

Descoberta de um novo modo de evangelizar: A pandemia nos obrigou a repensar nossa ação evangelizadora. Fomos obrigados a nos repensar para alcançar o povo, para continuar próximos às pessoas. A renovação de nossa ação pastoral, adotando as celebrações litúrgicas por via digital, não basta. A tecnologia moderna nos desafia a buscar novas formas de vivermos a fé e a caridade em nossas comunidades eclesiais missionárias.

Por fim, a fé e a Igreja não podem ficar “de quarentena”, não podem parar. Temos plena certeza de que esta crise é passageira e que devemos nos preparar e vislumbrar uma nova geração pós-pandêmica. O que vem depois desta pandemia? O Papa Francisco, numa carta dirigida aos movimentos e organizações populares e divulgada na Páscoa deste ano (12/04/2002), nos ofereceu algumas dicas muito ricas: “Também gostaria de convidá-los a pensar no ‘depois’, porque esta tempestade vai acabar e suas sérias consequências já estão sendo sentidas. (…) Quero que pensemos no projeto de desenvolvimento humano integral que ansiamos, focado no protagonismo dos povos em toda a sua diversidade e no acesso universal aos três T que vocês defendem: terra e comida, teto e trabalho”.