Artigo

Fake News e Pós-Verdade - Dom Edson Oriolo, Bispo de Leopoldina (MG)

Nos últimos meses, em um crescendo impressionante, tenho recebido inúmeras mensagens pelo whatsapp de diocesanos, irmãos bispos, padres amigos e fiéis leigos e leigas contendo ou comentando duras críticas às instituições e lideranças católicas, de forma geral. É triste ver pessoas compartilhando mensagens imbuídas de tais conteúdos. A Igreja é alvo de duras críticas internas e externas e, de algum modo, a polarização política que caracteriza o momento atual do nosso país, está afetando as relações eclesiais.

Os questionamentos são os mais variados: um carnaval de informações desconexas e desorientadas, muitas delas de uma criatividade que beira o absurdo. As pessoas que as recebem, por sua vez, de forma geral, tendem a acreditar nesses conteúdos. Apenas alguns se questionam se os vídeos, os artigos, as mensagens que recebem são verdadeiras ou não. Mesmo assim as pessoas continuam compartilhando e os ‘fatos’ ganham notoriedade, mais e mais cliques, conquistando “a opinião pública”. Até os responsáveis correm o risco de ser levados a opinar sob a pressão de uma torrente de comentários e reações, não se atendo ao conteúdo em si.

Ao clicar, compartilhar, replicar informações pelas redes sociais sem qualquer critério, além de cometermos injustiças e nos comprometermos com uma cultura de mentira e dissensão, há o risco de prestarmos um grande desserviço à evangelização da Igreja no Brasil nesse momento difícil de crise sanitária. No momento em que somos convidados a reinventar a nossa proposta missionária, para sermos ousados na dinâmica de lançar “as sementes do verbo”, com as melhores intenções, estamos lançando a semente do joio.

Recordo-me da expressão de Mark Twain “uma mentira pode fazer a volta ao mundo no mesmo intervalo de tempo em que a verdade calça seus sapatos”! Penso que, ao recebermos uma mensagem, antes de encaminhá-la para outros, precisamos considerar dois conceitos que vêm ganhando espaço no mundo digital: fake news e “pós-verdade”. Esses dois conceitos bem compreendidos vão nos orientar a agir com maior lucidez diante do que nos é apresentado. Teremos a postura de fact-checker (checador de fatos).

Em um primeiro momento, vamos refletir sobre fake news. Nunca conservei afeição a tal expressão, pois as notícias podem não ser falsas. Notícias são fatos ou não são notícias. A expressão significa todo tipo de conteúdo descontextualizado, impreciso, manipulado ou baseado em meras teorias de conspiração. São, por exemplo, notícias antigas veiculadas como se fossem atuais, tiradas de contexto com interesses inconfessáveis de manipulação.

As fake news têm por objetivo denegrir pessoas ou deturpar um acontecimento, de modo que haja repercussão, influenciando, equivocadamente, a opinião pública. É a potencialização da fofoca, pela comunicação rápida e irrestrita. Parece algo distante, mas, diariamente, somos bombardeados por estas informações, principalmente por meio do aplicativo WhatsApp. Um aplicativo que possibilita relacionamentos rápidos, com diálogos instantâneos, bem como contatos interpessoais, ligações afetivas, profissionais e lúdicas.

Sabemos que muitas pessoas se sentem atraídas por emoções negativas, por revelações bombásticas e reviravoltas imprevistas. Anseiam por soluções instantâneas e acontecimentos determinantes. As fake news costumam ser bem estruturadas, mesclando dados inquestionáveis com outros inexatos e fantasiosos.  As pessoas mais ingênuas ou simples, em geral bem intencionadas, são presas fáceis para mentes maliciosas que, compartilhando falsas notícias, muitas vezes, conseguem revestir-lhes de uma aura de verdade. As notícias inventadas, impulsionadas pelo sistema de algoritmos das redes sociais e favorecidas pela ausência de uma capacidade crítico-formal adequada, ganham grande espaço entre a população. O fruto mais imediato da banalização das fake news é o pós-verdade.

Ao recebermos uma mensagem, sem qualquer compromisso com a verificação de sua autenticidade, sem um freio de bom senso que nos faça pensar nas conseqüências de levarmos adiante aquele conteúdo, dispomos em nossos expedientes racionais um terreno fértil para tratá-la como verdadeira e inquestionável, na medida em que ela nos fascina pela engenhosidade de seus argumentos. Tal mensagem falsa, por ter sido pensada justamente para essa finalidade, parece condizer exatamente com aquilo que pensamos, com aquilo que gostaríamos de expressar e nos identificamos afetivamente (ideologicamente) com seu conteúdo: nasce uma pós-verdade.

Segundo o dicionário Oxford, ‘pós-verdade’ refere-se a “circunstâncias nas quais os fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que os apelos à emoção a crenças pessoais”. A ‘pós-verdade’, que é uma espécie de falência da racionalidade e da ética ocidentais, caracteriza-se pela relativização da realidade das coisas em benefício de convicções formadas em um cenário eminentemente afetivo e ideológico, ainda que sem nexo com a razão. As coisas são de determinado modo porque eu quero que elas sejam assim ou porque elas, sendo assim, favorecerão o meu discurso: o mais não interessa.

O cenário é mesmo assustador e só há um meio para nos mantermos inumes desse ‘vírus’ perigosíssimo, que adoece as relações humanas e que pode destruir a nossa alegria de ser Igreja: questionar e checar, com rigor, toda informação que recebermos, cuidando para não sermos divulgadores da mentira, do ódio e da dissensão. Quando recebermos um conteúdo, perguntamo-nos: qual a intenção, ou o interesse, de quem produziu esse material? Há certeza absoluta de que ele esteja fundamentado na verdade? Havendo uma dúvida e ou um “não”, deixar de compartilhar ou curtir, até uma certeza.

A pós-verdade favorece a produção de uma lógica muito arraigada de “desinformação”. Se o conteúdo simplesmente compactua com as minhas paixões e eu não me preocupo em saber se é mentira ou não e o divulgo o mais rápido possível, estou sendo um instrumento poderoso na mão de manipuladores, que visam a destruição ou, ao menos, a polarização e a desconfiança mútua, mesmo no interno da Igreja. Jesus nos ensinou como devemos reagir diante dessas situações: entre vós não deve ser assim (cf. Mt. 20,17).

E, na iminência do tempo quaresmal, façamos um exame de consciência e questionemos se estamos agindo como filhos da luz. Nós somos formadores de opinião, todos nós o somos. Mesmo a nossa ingenuidade pode ser usada como instrumento de maldade. Cada ato nosso tem conseqüências, diante da grave responsabilidade de continuarmos a obra salvífica do Verbo Encarnado. Os meios digitais de comunicação, sobretudo neste tempo de pandemia, são o grande universo da evangelização. Nós, os católicos, seremos amigos ou inimigos da Cruz de Cristo, na qual está fundada a nossa unidade?