Artigo

Pronunciamentos do Papa na Bulgária e Macedônia - terceira parte

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO À BULGÁRIA E MACEDÔNIA DO NORTE [5-7 DE MAIO DE 2019]

ENCONTRO COM AUTORIDADES, SOCIEDADE CIVIL E CORPO DIPLOMÁTICO

DISCURSO DO SANTO PADRE

Mosaique Hall do Palácio Presidencial (Skopje), terça-feira, 7 de maio de 2019

Senhor Presidente, Senhor Primeiro-Ministro,

Ilustres membros do Corpo Diplomático,

Distintas Autoridades civis e religiosas,

Queridos irmãos e irmãs!

Agradeço cordialmente ao Senhor Presidente as suas amáveis palavras de boas-vindas e o estimado convite que me dirigiu, juntamente com o Senhor Primeiro-Ministro, para visitar a Macedónia do Norte.

De igual modo agradeço aos Representantes das outras Comunidades religiosas aqui presentes. Saúdo calorosamente a comunidade católica aqui representada pelo Bispo de Skopje e Eparca da Eparquia da Bem-Aventurada Virgem Maria da Assunção em Strumica-Skopje, que é parte ativa e integrante da vossa sociedade e participa a todos os títulos nas alegrias, preocupações e vida diária do vosso povo.

É a primeira vez que o Sucessor do Apóstolo Pedro visita a República da Macedónia e tenho a alegria de o poder fazer no vigésimo quinto aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas com a Santa Sé, que teve lugar poucos anos depois da independência, ocorrida em setembro de 1991.

Ponte entre o Oriente e o Ocidente e ponto de confluência de numerosas correntes culturais, a vossa terra condensa muitas caraterísticas peculiares desta região. Com os requintados testemunhos do seu passado bizantino e otomano, com as ousadas fortalezas entre as montanhas e as esplêndidas iconóstases das suas antigas igrejas, que revelam uma presença cristã desde os tempos apostólicos, a vossa terra manifesta a densidade e a riqueza da cultura milenária que nela habita. Mas seja-me permitido afirmar que esta riqueza cultural é apenas o espelho do vosso património mais precioso e válido: a composição multiétnica e multirreligiosa da fisionomia do vosso povo, fruto duma história rica e – por que não? – também complexa de relações tecidas ao longo dos séculos.

Este cadinho de culturas e filiações étnicas e religiosas deu origem a uma convivência pacífica e duradoura, na qual cada uma das várias identidades soube e pôde expressar-se e desenvolver-se sem negar, oprimir ou discriminar as outras. A sua atitude é mais do que tolerância: as diferentes identidades souberam ter respeito. Deste modo deram forma a uma teia de relações e situações que, sob este ponto de vista, pode tornar-vos um exemplo de referimento para uma convivência serena e fraterna, na diferença e no respeito mútuo.

Estas caraterísticas especiais possuem, ao mesmo tempo, um relevante significado no caminho duma integração mais estreita com os países europeus. Almejo que tal integração se desenvolva positivamente por toda a região dos Balcãs ocidentais e sempre também no respeito pelas diferenças e os direitos fundamentais.

Na realidade, aqui, tanto a diferente filiação religiosa de ortodoxos, muçulmanos, católicos, judeus e protestantes, como a distinção étnica entre macedónios, albaneses, sérvios, croatas e pessoas doutras origens criaram um mosaico no qual cada ladrilho é necessário para a originalidade e beleza do quadro geral; beleza essa, que alcançará o seu esplendor maior na medida em que a souberdes transmitir e semear no coração das novas gerações.

Todos os esforços, que forem realizados para que as diferentes expressões religiosas e as várias etnias encontrem um terreno de entendimento comum no respeito pela dignidade de cada pessoa humana e na consequente garantia das liberdades fundamentais, nunca serão em vão; antes, constituirão a sementeira necessária para um futuro de paz e fecundidade.

Quero ainda salientar o generoso esforço feito pela vossa República – seja pelas suas autoridades estatais, seja com a válida contribuição de diferentes organizações internacionais, da Cruz Vermelha, da Cáritas e dalgumas ONGs – para acolher e prestar assistência ao grande número de migrantes e refugiados vindos de vários países do Médio Oriente: fugiam da guerra ou de condições de pobreza extrema, muitas vezes suscitadas precisamente por graves episódios bélicos, e nos anos de 2015 e 2016 cruzaram as vossas fronteiras dirigindo-se a maioria deles para a parte norte e ocidental da Europa, tendo encontrado junto de vós um válido abrigo. A pronta solidariedade oferecida àqueles que se encontravam então na mais pungente necessidade por ter perdido tantas pessoas queridas, para além da casa, do trabalho e da pátria, honra-vos e fala da alma deste povo que, apesar de experimentar também as privações, reconhece na solidariedade e partilha dos bens as vias de todo o desenvolvimento autêntico. Almejo que a lição da cadeia solidária que caraterizou aquela emergência seja aproveitada em benefício de todo o trabalho de voluntariado ao serviço das inúmeras formas de mal-estar e necessidade.

Quero também de modo muito especial prestar homenagem a uma vossa ilustre compatriota que, movida pelo amor de Deus, fez da caridade para com o próximo a lei suprema da sua existência, suscitando admiração em todo o mundo e inaugurando uma maneira específica e radical de se colocar ao serviço dos abandonados, dos descartados, dos mais pobres. Refiro-me àquela que é universalmente conhecida como Madre Teresa de Calcutá. Nasceu num subúrbio de Skopje em 1910, recebeu o nome de Anjezë Gonxha Bojaxhiu, realizou o seu apostolado, feito de humilde e total doação de si própria, na Índia e, através das suas irmãs, alcançou os mais variados confins geográficos e existenciais. Sinto-me feliz por poder, daqui a pouco, visitar e parar em oração no Memorial dedicado a ela, construído no lugar onde surgia a igreja do Sagrado Coração de Jesus, em que ela foi batizada.

Com razão, vos orgulhais desta grande mulher. Exorto-vos a continuar a trabalhar com empenho, dedicação e esperança, para que os filhos e as filhas desta terra possam, a seu exemplo, descobrir, alcançar e amadurecer a vocação que Deus sonhou para eles.

Senhor Presidente!

A Santa Sé, a partir do momento em que a Macedónia do Norte obteve a independência, acompanhou com viva atenção os passos realizados pelo país para fazer avançar o diálogo e a compreensão entre as autoridades civis e as confissões religiosas.

Hoje, a Providência dá-me a possibilidade de manifestar pessoalmente esta proximidade, bem como de expressar gratidão pela visita que, cada ano, uma vossa delegação oficial faz ao Vaticano por ocasião da festa dos Santos Cirilo e Metódio. Encorajo-vos a prosseguir, confiantes, no caminho iniciado para fazer do vosso país um farol de paz, hospitalidade e integração fecunda entre culturas, religiões e povos. Assim, a partir das respetivas identidades e do dinamismo da sua vida cultural e civil, poderão construir um destino comum, abrindo-se às riquezas de que é portador cada um.

Que Deus proteja e abençoe a Macedónia do Norte, a conserve na concórdia e lhe conceda prosperidade e alegria!

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[5-7 DE MAIO DE 2019]

VISITA AO MEMORIAL MADRE TERESA  COM LÍDERES RELIGIOSOS E ENCONTRO COM OS POBRES ORAÇÃO À MADRE TERESA

 Memorial Madre Teresa – Skopje, terça-feira, 7 de maio de 2019

Deus, Pai de misericórdia e de todo o bem,
agradecemo-Vos pelo dom da vida
e do carisma de Santa Madre Teresa.

Na vossa infinita Providência, chamaste-la
para dar testemunho do vosso amor
entre os mais pobres da Índia e do mundo.

Ela soube fazer bem aos mais necessitados,
porque reconheceu em cada homem e mulher
o rosto do vosso Filho.

Dócil ao vosso Espírito,
tornou-se a voz suplicante dos pobres
e de todos aqueles
que têm fome e sede de justiça.

Acolhendo o grito de Jesus na cruz
«tenho sede»,
Madre Teresa dessedentou
a sede de Jesus na Cruz,
realizando as obras do amor misericordioso.

Pedimo-vos, Santa Madre Teresa,
mãe dos pobres,
a vossa particular intercessão e a vossa ajuda,
aqui, na cidade do vosso nascimento,
onde era a vossa casa.

Aqui recebestes o dom do renascimento
nos sacramentos da Iniciação Cristã.

Aqui ouvistes as primeiras palavras da fé
na própria família e na comunidade dos fiéis.

Aqui começastes a ver
e a conhecer as pessoas necessitadas,
os pobres e os humildes.

Aqui aprendestes com os próprios pais a querer bem
aos mais necessitados e a ajudá-los.

Aqui, no silêncio da igreja,
ouvistes a chamada de Jesus para O seguir,
como religiosa, nas missões.

Daqui vos pedimos: intercedei junto de Jesus
para que também nós obtenhamos a graça
de estar vigilantes e atentos ao grito dos pobres,
daqueles que estão privados dos seus direitos,
dos doentes, dos marginalizados, dos últimos.

Alcançai-nos a graça de vos ver
nos olhos de quem nos olha,
porque precisa de nós.

Dai-nos um coração que saiba amar a Deus
presente em cada homem e mulher
e que sabe reconhecer Jesus naqueles
que vivem aflitos por tribulações e injustiças.

Alcançai-nos a graça de sermos, também nós,
sinal de amor e esperança no nosso tempo,
que vê tantos indigentes, abandonados
marginalizados e migrantes.

Fazei com que o nosso amor não seja só palavras,
mas seja eficaz e verdadeiro.

Rezai por nós, para podermos prestar
um testemunho credível da Igreja
que tem o dever
de anunciar o Evangelho aos pobres,
a libertação aos prisioneiros, a alegria aos aflitos,
a graça da salvação a todos.

Santa Madre Teresa, rezai por esta cidade,
por este povo, pela sua Igreja
e por todos aqueles que querem seguir Cristo
como discípulos d’Ele, Bom Pastor,
realizando obras de justiça, amor,
misericórdia, paz e serviço,
como Ele que veio, não para ser servido,
mas para servir e dar a vida por muitos,
Cristo nosso Senhor.

Amen.

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SANTA MISSA - HOMILIA DO SANTO PADRE

Praça Macedônia (Skopje), terça-feira, 7 de maio de 2019

«Quem vem a Mim não mais terá fome e quem crê em Mim jamais terá sede» (Jo 6, 35): acaba de nos dizer o Senhor.

Ao redor de Jesus – segundo o Evangelho –, concentra-se uma multidão, que tinha ainda fixa nos olhos a multiplicação dos pães; um daqueles momentos que se gravou nos olhos e no coração da primeira comunidade dos discípulos. Tinha sido uma festa... A festa de descobrir a superabundância e a solicitude de Deus pelos seus filhos, irmanados na fração e partilha do pão. Imaginemos por um momento aquela multidão. Algo havia mudado. Por alguns instantes, aquelas pessoas sedentas e silenciosas, que seguiam Jesus à procura duma palavra, puderam tocar com as próprias mãos e sentir no seu corpo o milagre da fraternidade capaz de saciar e fazer sobreabundar.

O Senhor veio para dar vida ao mundo e fá-lo sempre duma maneira que consegue desafiar a mesquinhez dos nossos cálculos, a mediocridade das nossas expetativas e a superficialidade dos nossos intelectualismos; coloca em discussão as nossas perspetivas e as nossas certezas, convidando-nos a passar a um horizonte novo que dá espaço a um modo diferente de construir a realidade. Ele é o Pão vivo descido do Céu: «quem vem a Mim não mais terá fome e quem crê em Mim jamais terá sede».

Toda aquela gente descobriu que a fome de pão tinha também outros nomes: fome de Deus, fome de fraternidade, fome de encontro e de festa partilhada.

Habituamo-nos a comer o pão duro da desinformação, e acabamos prisioneiros do descrédito, dos rótulos e da infâmia; julgamos que o conformismo saciaria a nossa sede, e acabamos por nos dessedentar de indiferença e insensibilidade; alimentamo-nos com sonhos de esplendor e grandeza, e acabamos por comer distração, fechamento e solidão; empanturramo-nos de conexões, e perdemos o gosto da fraternidade. Buscamos o resultado rápido e seguro, e encontramo-nos oprimidos pela impaciência e a ansiedade. Prisioneiros da virtualidade, perdemos o gosto e o sabor da realidade.

Digamo-lo com força e sem medo: temos fome, Senhor... Temos fome, Senhor, do pão da vossa Palavra capaz de abrir os nossos fechamentos e as nossas solidões; temos fome, Senhor, de fraternidade, onde a indiferença, o descrédito, a infâmia não encham as nossas mesas nem ocupem o primeiro lugar em nossa casa. Temos fome, Senhor, de encontros onde a vossa Palavra seja capaz de elevar a esperança, despertar a ternura, sensibilizar o coração abrindo caminhos de transformação e conversão.

Temos fome, Senhor, de experimentar – como aquela multidão – a multiplicação da vossa misericórdia, capaz de quebrar os estereótipos e de repartir e partilhar a compaixão do Pai por cada pessoa, especialmente por aqueles de quem ninguém cuida, que são esquecidos ou desprezados. Digamo-lo com força e sem medo, temos fome de pão, Senhor: do pão da vossa palavra e do pão da fraternidade.

Daqui a pouco, deslocar-nos-emos e iremos à mesa do altar para nos alimentarmos com o Pão da Vida obedecendo ao mandato do Senhor: «quem vem a Mim não mais terá fome e quem crê em Mim jamais terá sede» (Jo 6, 35). É a única coisa que o Senhor nos pede: vinde. Convida a colocar-nos a caminho, em movimento, em saída. Exorta-nos a caminhar para Ele para nos tornar participantes da sua própria vida e missão. «Vinde»: diz-nos o Senhor. Uma vinda que não significa apenas mudar dum lugar para outro, mas a capacidade de nos deixarmos mover, transformar pela sua Palavra nas nossas opções, nos sentimentos, nas prioridades para nos aventurarmos a realizar os seus próprios gestos e a falar com a sua própria linguagem, «a linguagem do pão que fala de ternura, companhia, dedicação generosa aos outros»,[1] amor concreto e palpável porque real no dia a dia.

Em cada Eucaristia, o Senhor Se fraciona e distribui, convidando-nos, a nós também, a fracionarmo-nos e distribuirmo-nos juntamente com Ele e participarmos naquele milagre de multiplicação que quer alcançar e tocar todos os cantos desta cidade, deste país, desta terra com um pouco de ternura e compaixão.

Fome de pão, fome de fraternidade, fome de Deus. Como conhecia bem tudo isto Madre Teresa que quis fundar a sua vida sobre dois pilares: Jesus encarnado na Eucaristia e Jesus encarnado nos pobres! Amor que recebemos, amor que damos. Dois pilares inseparáveis, que marcaram o seu caminho, colocaram-na em movimento, desejosa também ela de mitigar a sua fome e a sua sede. Foi ter com o Senhor e, com o mesmo ato, foi ter com o irmão desprezado, não amado, sozinho e esquecido; foi ter com o irmão e encontrou o rosto do Senhor... Porque sabia que «amor de Deus e amor do próximo fundem-se num todo: no mais pequenino, encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus»,[2] e aquele amor era a única coisa capaz de saciar a sua fome.

Irmãos, hoje o Senhor ressuscitado continua a caminhar no meio de nós, nos lugares onde transcorre e se joga a vida diária. Conhece a nossa fome e continua a dizer-nos: «Quem vem a Mim não mais terá fome e quem crê em Mim jamais terá sede» (Jo 6, 35). Encorajemo-nos uns aos outros a levantar-nos de pé e experimentar a abundância do seu amor; deixemos que Ele sacie a nossa fome e sede no sacramento do altar e no sacramento do irmão.

Agradecimento no final da Santa Missa

Amados irmãos e irmãs!

Antes da Bênção final, sinto necessidade de expressar a minha gratidão. Agradeço ao Bispo de Skopje as suas palavras e sobretudo o trabalho realizado na preparação deste dia. E, juntamente com ele, agradeço a quantos colaboraram: sacerdotes, religiosos e fiéis leigos. De coração, obrigado a todos!

E renovo a expressão do meu reconhecimento também às Autoridades civis do país, às forças da ordem e aos voluntários. O Senhor saberá recompensar da melhor forma a cada um. Pela minha parte, recordo-vos na minha oração e peço também a vós para rezardes por mim.

 

[1] J. M. Bergoglio, Homilía Corpus Christi (Buenos Aires 1995).

[2] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est, 15.

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ENCONTRO ECUMÉNICO E INTER-RELIGIOSO COM OS JOVENS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Centro Pastoral (Skopje), terça-feira, 7 de maio de 2019

Queridos amigos!

Poder ter estes encontros é sempre motivo de alegria e esperança. Obrigado por o terdes feito possível e me terdes dado esta oportunidade. De coração, obrigado pela vossa dança, muito linda, e as vossas perguntas. Eu conhecia as perguntas: tinha-as recebido e conheci-as, tendo preparado alguns pontos para refletir convosco sobre estas perguntas.

Começo pela última (como dizia o Senhor, os últimos serão os primeiros). Liridona, depois de teres partilhado connosco as tuas aspirações, perguntavas-me: «Sonho demais?» Uma boa pergunta, à qual gostaria de podermos responder juntos. Na vossa opinião, Liridona sonha demais?

Quero dizer-vos que sonhar nunca é demais. Um dos principais problemas de hoje e de muitos jovens é terem perdido a capacidade de sonhar. Nem muito nem pouco; simplesmente não sonham! E, quando uma pessoa não sonha, quando um jovem não sonha, o respetivo espaço é ocupado pela lamentação e pela resignação ou pela tristeza. «Estas deixemo-las aos que seguem a “deusa lamentação”! (...) É um engano: faz com que te encaminhes pela estrada errada. Quando tudo parece estar parado e estagnante, quando os problemas pessoais nos preocupam, as dificuldades sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 141). Por isso, querida Liridona, queridos amigos, nunca, nunca se sonha demais. Tentai pensar nos vossos sonhos maiores, em sonhos como o de Liridona (ainda o recordais?): dar esperança a um mundo cansado, juntamente com os outros, cristãos e muçulmanos. É, sem dúvida, um sonho muito lindo. Não pensou em coisas pequenas, em coisas terra a terra, mas sonhou em grande. E vós, jovens, deveis sonhar em grande!

Alguns meses atrás, juntamente com um amigo, o Grande Imã de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb, tínhamos, nós também, um sonho muito parecido com o teu que nos levou a querer comprometer-nos assinando juntos um documento que diz que a fé deve levar-nos, a nós crentes, a ver nos outros irmãos que devemos apoiar e amar sem nos deixarmos manipular por interesses mesquinhos (cf. Documento sobre a Fraternidade Humana, Abu Dhabi 4 de fevereiro de 2019). Somos crescidos, mas não há uma idade para sonhar! Sonhai e sonhai em grande!

Isto faz-me pensar naquilo que nos dizia Bozanka: que a vós, jovens, agradam as aventuras. E fico contente que seja assim, porque é a forma linda de ser jovem: viver uma aventura, uma boa aventura. O jovem não tem medo de fazer da sua vida uma boa aventura. E pergunto-vos: haverá aventura que requeira mais coragem do que o sonho partilhado connosco por Liridona, ou seja, dar esperança a um mundo cansado? O mundo está cansado, está envelhecido; o mundo está dividido; e parece vantajoso dividi-lo e dividir-nos ainda mais. Há tantos adultos que querem criar divisão entre nós. Tende cuidado! Como ressoam fortes as palavras do Senhor: «Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9)! Que nos poderá estimular mais do que esforçar-nos todos os dias, com dedicação, por ser artesãos de sonhos, artesãos de esperança? Os sonhos ajudam-nos a manter viva a certeza de saber que outro mundo é possível, e que somos chamados a envolver-nos nele e contribuir para ele com o nosso trabalho, o nosso empenho e a nossa atividade.

Neste país, há uma bela tradição: a dos artesãos cinzeladores, hábeis em cortar a pedra e trabalhá-la. Sabem? É preciso fazer como aqueles artistas e tornar-se bons cinzeladores dos próprios sonhos. Precisamos de trabalhar sobre os nossos sonhos. Um cinzelador toma a pedra nas suas mãos e, lentamente, começa a moldá-la e transformá-la, com dedicação e esforço e sobretudo com uma grande vontade de ver como aquela pedra, pela qual ninguém daria nada, se torna uma obra de arte.

«Os sonhos mais belos conquistam-se com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas [como aqueles artistas]. Ao mesmo tempo, é preciso não se deixar bloquear pela insegurança: não se deve ter medo de arriscar e cometer erros [isso não, não tenhais medo]; devemos, sim, ter medo de viver paralisados, como mortos ainda em vida, sujeitos que não vivem porque não querem arriscar [e um jovem que não arrisca está morto. Eles] não perseveram nos seus compromissos ou têm medo de errar. Ainda que erres, poderás sempre levantar a cabeça e voltar a começar, porque ninguém tem o direito de te roubar a esperança» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 142). Não deixeis que vos roubem a esperança!

Queridos jovens, não tenhais medo de vos tornar artesãos de sonhos e artesãos de esperança. Estais de acordo? [respondem com um aplauso].

«Certamente nós, membros da Igreja, não precisamos de aparecer como sujeitos estranhos. Todos nos devem sentir irmãos e vizinhos, como os Apóstolos que “tinham a simpatia de todo o povo” (At 2, 47; cf. 4, 21.33; 5, 13). Ao mesmo tempo, porém, devemos ter a coragem de ser diferentes, mostrar outros sonhos que este mundo não oferece, testemunhar a beleza da generosidade, do serviço, da pureza, da fortaleza, do perdão, da fidelidade à própria vocação, da oração, da luta pela justiça e o bem comum, do amor aos pobres, da amizade social» (Ibid., 36).

Pensai em Madre Teresa! Quando morava aqui, não podia imaginar como haveria de ser a sua vida, mas não cessou de sonhar e esforçar-se sempre por procurar descobrir o rosto do seu grande amor, que era Jesus: descobri-Lo em todos aqueles que estavam à beira de estrada. Sonhou em grande e, por isso, também amou em grande. Tinha os pés bem firmes aqui, na sua terra, mas não estava ociosa. Queria ser «um lápis nas mãos de Deus». Tal era o seu sonho artesanal. Ofereceu-o a Deus, acreditou nele, sofreu por ele, nunca desistiu dele. E, com aquele lápis, Deus começou a escrever páginas inéditas e estupendas. Uma jovem do vosso povo, uma mulher do vosso povo, sonhando, escreveu coisas grandes. Foi Deus que as escreveu, mas ela sonhou e deixou-se guiar por Deus.

Cada um de vós, como Madre Teresa, é chamado a trabalhar com as próprias mãos, a tomar a vida a sério, para fazer dela algo de bom. Não permitamos que nos roubem os sonhos (cf. Ibid., 17). Não o permitais; estai atentos! Não nos privemos da novidade que o Senhor nos quer dar. Encontrareis muitos imprevistos, muitos..., mas é importante que os possais enfrentar e procurar criativamente o modo de os transformar em oportunidades. Mas nunca sozinhos; ninguém pode combater sozinho. Como nos testemunharam Dragan e Marija: «a nossa comunhão dá-nos a força para enfrentar os desafios da sociedade atual».

Retomo aquilo que disseram Dragan e Marija: «A nossa comunhão dá-nos a força para enfrentar os desafios da sociedade atual». Aqui está um ótimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente, não se pode viver a fé, os sonhos sem comunidade, apenas no próprio coração ou em casa, fechados e isolados dentro de quatro paredes; precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente.

Como é importante sonhar juntos! Como fazeis hoje: aqui, todos unidos, sem barreiras. Por favor, sonhai juntos, não sozinhos; sonhai com os outros, nunca contra os outros. Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos.

Há poucos minutos, vimos duas crianças a jogar aqui. Queriam jogar, jogar juntas. Não foram jogar no visor do computador, queriam um jogo na realidade concreta! Vimo-las: estavam felizes, contentes, porque sonhavam jogar juntas, uma com a outra. Vistes o que sucedeu depois? A certa altura, uma deu-se conta de que era mais forte que a outra e, em vez de sonhar com a outra, começou a sonhar contra a outra, e procurou vencê-la. E a alegria transformou-se no choro daquela pobre coitada que acabou no chão. Vistes como se pode passar do sonhar com o outro a sonhar contra o outro. Nunca domines o outro; faz comunidade com o outro! Esta é a alegria de continuar para diante. É muito importante.

Dragan e Marija disseram-nos como isto se torna difícil, quando tudo parece isolar-nos e privar-nos da oportunidade de nos encontrarmos, deste «sonhar com o outro». Nos anos que tenho (e não são poucos), sabeis qual foi a melhor lição que vi e conheci em toda a minha vida? O «face a face». Entramos na era das conexões, mas sabemos pouco de comunicações. Tantos contactos, mas comunica-se pouco. Muito conectados e pouco envolvidos uns com os outros. Porque envolver-se reclama a vida, exige estar presente e compartilhar momentos belos... e outros menos belos. No Sínodo do ano passado dedicado aos jovens, pudemos viver a experiência de nos encontrar face a face, jovens e menos jovens, e escutar-nos, sonhar juntos, olhar em frente com esperança e gratidão. Aquele foi o melhor antídoto contra o desânimo, contra a manipulação, contra a cultura do efémero, de tantos contactos sem comunicação, contra a cultura dos falsos profetas que só anunciam desgraças e destruição. O antídoto é escutar e escutar-nos. E agora deixai que vos diga uma coisa que me está muito a peito: aproveitai a oportunidade de partilhar e gozar dum bom «face a face» com todos, mas sobretudo com os vossos avós, com os idosos da vossa comunidade. Talvez algum de vós já me tenha ouvido dizê-lo, mas penso que é um antídoto contra todos aqueles que vos querem encerrar no presente, afogando-vos e sufocando-vos com pressões e exigências duma suposta felicidade, onde parece que o mundo está para acabar e é preciso fazer e viver tudo imediatamente. Com o passar do tempo, isto gera muita ansiedade, insatisfação, resignação. Para um coração doente com a resignação, não há remédio melhor do que escutar as experiências dos idosos.

Amigos, passai tempo com os vossos idosos, com os vossos anciãos; escutai as suas longas histórias, que às vezes parecem fantasiosas, mas na realidade estão cheias duma preciosa experiência, cheios de símbolos eloquentes e sabedoria escondida que é preciso descobrir e valorizar. São histórias que requerem tempo (cf. Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 195). Não esqueçamos o provérbio: um anão pode ver mais longe estando aos ombros dum gigante. Desta forma, adquirireis uma visão que nunca alcançastes até agora. Entrai na sabedoria do vosso povo, da vossa gente, entrai sem vergonha nem complexos, e encontrareis uma fonte de criatividade inesperada que tudo preencherá, permitindo-vos ver estradas onde outros veem muros, possibilidades onde outros veem perigo, ressurreição onde muitos anunciam apenas morte.

É por isso, queridos jovens, que vos digo para falar com os vossos avós e com os vossos anciãos. Eles são as raízes, as raízes da vossa história, as raízes do vosso povo, as raízes das vossas famílias. Deveis agarrar-vos às raízes para tirar delas a seiva que fará a árvore crescer e dar flores e frutos, mas sempre a partir das raízes. Não digo que deveis enterrar-vos com as raízes. Não; isto não! Mas deveis ir escutar as raízes, e tirar de lá a força para crescer, para prosseguir. Se se cortam as raízes a uma árvore, esta morre. A vós jovens, se vos cortarem as vossas raízes, que são a história do vosso povo, morrereis. Sim, continuareis a viver, mas sem fruto: a vossa pátria, o vosso povo não poderão dar fruto, porque vos separastes das raízes.

No meu tempo de criança, na escola diziam-nos que, quando os europeus foram descobrir a América, levavam vidros coloridos: mostravam-nos aos índios, aos indígenas; e estes entusiasmavam-se com os vidros coloridos, que não conheciam. E aqueles índios esqueciam as suas raízes; compravam os vidros coloridos e, em troca, davam ouro. Com os vidros coloridos, roubavam o ouro. Era uma novidade, e davam tudo para ter aquela novidade que não valia nada. Vós, jovens, tende cuidado, porque ainda hoje existem os conquistadores, os colonizadores que nos trarão os vidros coloridos: são as colonizações ideológicas. Virão ter convosco e dir-vos-ão: «Não está bem! Vós deveis ser um povo mais moderno, mais progressista, deveis avançar… Tomai estas coisas, segui por esta estrada, esquecei as coisas antigas: avançai!» Que deveis fazer? Discernir. Aquilo que me traz esta pessoa, é uma coisa boa, que está de harmonia com a história do meu povo? Ou são «vidros coloridos»? E, para não nos enganarmos, é importante falar com os idosos, falar com os anciãos que vos transmitirão a história do vosso povo, as raízes do vosso povo. Falemos com os idosos, para crescer. Falemos com a nossa história, para levá-la ainda mais para diante. Falemos com as nossas raízes, para dar flores e frutos.

E agora tenho de terminar, porque o tempo foge. Mas confesso-vos uma coisa: desde o início desta conversa convosco, a minha atenção é atraída para uma situação. Olhava para esta mulher, aqui na frente: espera um bebé. Espera um bebé, e algum de vós poderia pensar: «Oh que desgraça! Pobre mulher, quanto terá de trabalhar!» Alguém pensa assim? Não. Ninguém pensa: «Oh passará tantas noites sem dormir pelo bebé que chora...». Não. Aquele bebé é uma promessa, aponta para a frente! Esta mulher arriscou para trazer um bebé ao mundo, porque olha para a frente, olha a história. Porque ela sente-se com a força das raízes a fim de levar a vida para diante, levar a pátria para diante, levar o povo para diante.

Terminemos, todos juntos, com um aplauso a todas as jovens, a todas as mulheres corajosas que levam a história para diante.

E obrigado ao tradutor, que foi tão bom!

 

Precisais das minhas mãos, Senhor?
(Oração de Madre Teresa)

Precisais das minhas mãos, Senhor,
para ajudar hoje os doentes e os pobres
que delas necessitam?
Senhor, hoje ofereço-Vos as minhas mãos.

Precisais dos meus pés, Senhor,
para que me levem hoje
àqueles que necessitam dum amigo?
Senhor, hoje ofereço-Vos os meus pés.

Precisais da minha voz, Senhor,
para que eu hoje fale a todos aqueles
que necessitam da vossa palavra de amor?
Senhor, hoje ofereço-Vos a minha voz.

Precisais do meu coração, Senhor,
para que eu ame a quem quer que seja
sem exceção alguma?
Senhor, hoje ofereço-Vos o meu coração.

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Discurso do Papa no encontro com sacerdotes e religiosas na Macedônia do Norte

Catedral do sagrado Coração de Jesus, em Skopje, terça-feira, 07 de maio de 2019-

Queridos irmãos e irmãs!

Obrigado pela oportunidade que me dais de vos poder encontrar. Vivo com uma gratidão especial este momento em que posso ver a Igreja respirar plenamente com os seus dois pulmões – rito latino e rito bizantino – para se encher do ar sempre novo e renovador do Espírito Santo.

Dois pulmões necessários, complementares, que nos ajudam a saborear melhor a beleza do Senhor (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 116). Demos graças pela possibilidade de respirar juntos, a plenos pulmões, como o Senhor foi bom para conosco.

Agradeço os vossos testemunhos, sobre os quais gostaria de voltar. Aludíeis ao fato de ser poucos e ao risco de ceder a algum complexo de inferioridade. Enquanto vos ouvia, vinha-me à mente a imagem de Maria de Betânia, que, tomando uma libra de perfume de nardo puro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com os seus cabelos. O evangelista conclui a descrição da cena, dizendo: «A casa encheu-se com a fragrância do perfume» (Jo 12, 3). Aquele nardo foi capaz de impregnar tudo e deixar uma marca inconfundível.

Há situações – e não são poucas – em que sentimos necessidade de fazer contas à vida: começamos a olhar quantos somos... e somos poucos; os meios que temos... e são poucos; depois vemos a quantidade de casas e obras a sustentar... e são demasiadas! Poderíamos continuar a enumerar as múltiplas realidades em que experimentamos a precariedade dos recursos que temos à disposição para levar por diante o mandato missionário que nos foi confiado. Quando isto acontece, parece que o saldo do balanço apareça «em vermelho», seja negativo.

É verdade que o Senhor nos disse: se queres construir uma torre, calcula as despesas; «não suceda que, depois de assentar os alicerces, [tu] não a possas acabar» (cf. Lc 14, 29). Mas, o «fazer as contas» pode-nos levar à tentação de olhar demasiado para nós próprios e, curvados sobre as nossas realidades e misérias, podemos acabar quase como os discípulos de Emaús, proclamando o querigma com os nossos lábios enquanto o nosso coração se fecha num silêncio marcado por subtil frustração, que o impede de escutar Aquele que caminha ao nosso lado e é fonte de júbilo e alegria.

Irmãos, «fazer as contas» é sempre necessário, quando nos pode ajudar a descobrir e aproximar de muitas vidas e situações que todos os dias sentem dificuldade em fazer quadrar as contas: famílias que não conseguem continuar, pessoas idosas e sozinhas, doentes forçados a estar na cama, jovens tristes e sem futuro, pobres que nos lembram o que somos, isto é, uma Igreja de mendigos necessitados da Misericórdia do Senhor. Só é lícito «fazer as contas», se isto leva a mover-nos tornando-nos solidários, atentos, compreensivos e solícitos em abeirar-nos das fadigas e precariedade em que vivem submersos muitos dos nossos irmãos necessitados duma Unção que os levante e cure na sua esperança.

Só é lícito fazer as contas para exclamar com força e implorar com o nosso povo: «Vinde, Senhor Jesus!»

Não quero abusar da imagem de Madre Teresa, mas esta terra soube dar ao mundo e à Igreja, precisamente nela, um sinal concreto de como a precariedade duma pessoa, ungida pelo Senhor, tenha sido capaz de impregnar tudo, quando o perfume das Bem-aventuranças se espalha sobre os pés cansados da nossa humanidade.

Quantos foram tranquilizados pela ternura do seu olhar, confortados pelas suas carícias, levantados pela sua esperança e alimentados pela coragem da sua fé, capaz de fazer sentir aos mais abandonados que não estavam abandonados por Deus! A história é escrita por estas pessoas que não têm medo de gastar a sua vida por amor: sempre que o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes (cf. Mt 25, 40).

Que grande sabedoria se encerra nas palavras de Santa Teresa Benedita da Cruz, quando afirma: «Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o que está oculto for revelado».

Com frequência, cultivamos fantasia sem limites pensando que as coisas seriam diferentes, se fôssemos fortes, poderosos e influentes. Mas o segredo da nossa força, poder e influência, e até da juventude, não estará porventura noutra parte que não no facto de «quadrarem as contas»? Pergunto-vos isto, porque me impressionou o testemunho de Davor, quando partilhou conosco aquilo que marcou o seu coração. Foste muito claro! O que te salvou do carreirismo foi voltar à primeira vocação, indo procurar o Senhor ressuscitado onde podia ser encontrado. Partiste, deixando o seguro para caminhar pelas ruas e praças desta cidade; aqui sentiste renovar-se a tua vocação e a tua vida; abaixando-te até à vida diária dos teus irmãos para compartilhar e ungir com o perfume do Espírito, o teu coração sacerdotal começou de novo a bater com maior intensidade.

Aproximaste-te para ungir os pés cansados do Mestre, os pés cansados de pessoas concretas e, no local onde se encontravam, o Senhor estava à tua espera para te ungir novamente na tua vocação.

Isso é muito importante. Para renovarmos a nós mesmos, às vezes, é preciso dar um passo atrás e reencontrar-se com o Senhor, retomar a memória do primeiro chamado. O autor da Carta aos Hebreus diz aos cristãos: ‘Lembrem-se dos primeiros dias’. Recordar a beleza daquele encontro com Jesus que te chamou. Naquele encontro, com o olhar de Jesus, tomar as foças para seguir adiante. Nunca perder a memória do primeiro chamado. A memória do primeiro chamado é um sacramental. É certo que, as dificuldades, os trabalhos apostólicos, esgotam a vida, e pode-se perder a ilusão, pode-se perder também o desejo da oração, de encontro o Senhor. Se se sente assim, pare, volte atrás, encontre-se com o Senhor do primeiro chamado. Esta memória te saltará.

Muitas vezes gastamos as nossas energias e recursos, as nossas reuniões, debates e programações para manter abordagens, ritmos, perspectivas que não só não entusiasmam ninguém, mas não conseguem sequer levar um pouco daquela fragrância evangélica capaz de confortar e abrir caminhos de esperança, e privam-nos do encontro pessoal com os outros. Como são justas estas palavras de Madre Teresa «aquilo de que não preciso, pesa-me»! Deixemos de lado todos os pesos que nos separam da missão e impedem que o perfume da misericórdia alcance o rosto dos nossos irmãos. Uma libra de nardo foi capaz de impregnar tudo e deixar uma marca inconfundível.

Não nos privemos do melhor da nossa missão, não apaguemos as palpitações do espírito.

Obrigado, Padre Goce e Gabriella e vossos filhos Filip, Blagoj, Luca, Ivan, por terdes partilhado conosco as vossas alegrias e preocupações do ministério e da vida familiar. E também o segredo para continuar para diante nos momentos difíceis que tivestes de passar.

O vosso testemunho tem aquela «fragrância evangélica» das primeiras comunidades. Lembremo-nos de que, «no Novo Testamento, se fala da “igreja que se reúne em casa” (cf. 1 Cor 16, 19; Rm 16, 5; Col 4, 15; Flm 2). O espaço vital de uma família podia transformar-se em igreja doméstica, em local da Eucaristia, da presença de Cristo sentado à mesma mesa.

Inesquecível é a cena descrita no Apocalipse: “Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo” (3, 20). Esboça-se assim uma casa que abriga no seu interior a presença de Deus, a oração comum e, por conseguinte, a bênção do Senhor» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia, 15). Desta forma, dais vivo testemunho de como «a fé não nos tira do mundo, mas insere-nos mais profundamente nele» (Ibid., 181). Não a partir daquilo que nós gostaríamos que fosse, não como «perfeitos» ou imaculados, mas na precariedade das nossas vidas, das nossas famílias ungidas cada dia na confiança do amor incondicional que Deus tem por nós. Confiança que nos leva – como bem nos lembraste, Padre Goce – a desenvolver algumas dimensões importantes, mas tão esquecidas na sociedade desgastada por relações frenéticas e superficiais: as dimensões da ternura, da paciência e da compaixão para com os outros.

Sempre me apraz pensar em cada uma das famílias como «ícone da família de Nazaré, com o seu dia-a-dia feito de fadigas e até de pesadelos, como quando teve que sofrer a violência incompreensível de Herodes, experiência que ainda hoje se repete tragicamente em muitas famílias de refugiados descartados e inermes» (Ibid., 30). Elas são capazes, graças à fé acumulada ao longo das lutas diárias, de «transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 286).

Os meios materiais são necessários, mas não são o mais importante. Por isso, não percam a capacidade de acariciar. Não percam a ternura ministerial nem a ternura da consagração religiosa.

Obrigado por terdes manifestado o rosto familiar de Deus conosco, que não deixa de nos surpreender no meio do arrumo da louça!

Queridos irmãos, obrigado mais uma vez por esta oportunidade eclesial de respirar a plenos pulmões. Peçamos ao Espírito que não cesse de nos renovar na missão com a confiança de saber que Ele quer impregnar tudo com a sua presença.

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Papa diz que comissão sobre diaconado feminino foi inconclusiva

Francisco falou do tema com os jornalistas, no regresso da Macedónia, e descartou mudanças

O Papa disse hoje que a comissão de estudo sobre o diaconado feminino, que criou em 2016, foi inconclusiva, descartando mudanças no futuro imediato.

“Não há certeza de que a sua (mulheres) fosse uma ordenação com a mesma forma e com o mesmo propósito que a ordenação masculina. Alguns dizem: há dúvidas. Vamos continuar a estudar. Mas até agora não se avança”, referiu, em declarações aos jornalistas durante o voo de regresso ao Vaticano, desde a Macedónia do Norte.

A questão surgiu depois de, durante a viagem internacional, que passou pela Bulgária, ter havido contatos com comunidades ortodoxas que permitem a ordenação de diaconisas.

“A comissão foi criada, trabalhou por quase dois anos. Todos tinham opiniões diferentes, mas trabalharam juntos e concordaram até certo ponto. Cada um deles tem a sua própria visão, que não concorda com a dos outros, e aí pararam como comissão”, explicou Francisco, a respeito do trabalho que foi levado a cabo no Vaticano por teólogos e teólogas de vários países.

O Papa sustenta que há uma forma de conceber o diaconado feminino que difere do masculino.

“Por exemplo, as fórmulas de ordenação diaconal encontradas até agora não são as mesmas para a ordenação do diácono masculino, assemelham-se ao que seria hoje a bênção abacial de uma abadessa. Este é o resultado. Outros dizem que não, esta é uma fórmula diaconal”, relatou.

A comissão tinha sido anunciada a 12 de maio de 2016, durante um encontro de Francisco com a União Internacional de Superioras Gerais (UISG) de institutos religiosos femininos.

O diaconado é o primeiro grau do Sacramento da Ordem (diaconado, sacerdócio, episcopado), atualmente reservado aos homens, na Igreja Católica.

Segundo o Papa, não existem dúvidas de que havia diaconisas no começo do Cristianismo, mas a questão está em determinar se “era uma ordenação sacramental ou não”.

Os estudos mostram que estas primeiras diaconisas assistiam na liturgia batismal de mulheres, que era por imersão, e eram chamadas para casos de disputa matrimonial para avaliar eventuais maus-tratos, mas Francisco sublinha que esta é uma situação limitada a uma área geográfica, especialmente a Síria.

“Aprendi todas essas coisas com a comissão, eles fizeram um bom trabalho e isso pode ser usado para ir em frente e dar uma resposta definitiva sobre o sim ou não. Ninguém diz isso agora, mas alguns teólogos há 30 anos disseram que não havia diaconisas, porque as mulheres estavam em segundo plano, na Igreja e não só na Igreja”, acrescentou o pontífice.

O Concílio Vaticano II (1962-1965) restaurou o diaconado permanente, a que podem aceder homens casados (depois de terem completado 35 anos de idade), o que não acontece com o sacerdócio.

O diaconado exercido por candidatos ao sacerdócio só é concedido a homens solteiros.

Com origem grega, a palavra ‘diácono’ pode traduzir-se por servidor, e corresponde a alguém especialmente destinado na Igreja Católica às atividades caritativas, a anunciar a Bíblia e a exercer funções litúrgicas, como assistir o bispo e o padre nas missas, administrar o Batismo, presidir a casamentos e exéquias, entre outras funções.