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Reflexão para o 4º Domingo da quaresma no contexto da pandemia do Coronavírus

O texto base da Campanha da Fraternidade sobre a vida, dom e compromisso, com o lema das atitudes do bom samaritano com o machucado à beira da estrada, viu, sentiu compaixão e cuidou dele, fala em diferentes olhares que podemos ter: o olhar da indiferença que ameaça a vida, foi o do sacerdote e do levita e é o dos que não percebem os muitos problemas da realidade social, parece viverem em outro mundo; o olhar que destrói a natureza, é o dos que  não se dão conta da agressão à natureza, da extinção de inúmeras espécies, dos desequilíbrios climáticos; o olhar da solidariedade social, é o dos que percebem e valorizam os que defendem a vida atuando nas diversas entidades, conselhos de direitos, organizações não populares, sindicatos, associação de moradores e outras comprometidas com a vida. A Pastoral da Criança tem 74.000 voluntários atendendo 800 mil crianças em todo o Brasil e há tantos outros nas 26 Pastorais Sociais da Igreja em nosso País.

Pois, a Palavra de Deus deste quarto domingo de quaresma, domingo chamado da alegria, pela proximidade da Páscoa, nos fala do olhar de Deus, dos critérios com os quais Ele olha para as pessoas, nos convida a andar na luz de Cristo, que dá a visão dos olhos ao cego de nascença e, muito mais, lhe dá a visão, o olhar da fé.

Na primeira leitura, temos Samuel, um dos últimos Juízes em Israel, foi enviado por Deus à casa de Jessé, pai de oito filhos, para ungir um deles rei do povo. Como tal, o ungido devia servir o povo, consciente de que sua autoridade vinha de Deus. Vendo o filho mais velho, forte e elegante, Samuel pensou que fosse ele a ser ungido. Mas Deus lhe disse que não era, advertindo-o que não devia olhar as aparências. Jessé chamou um a um os outros seis irmãos que estavam em casa. Nenhum deles era o escolhido de Deus. Samuel perguntou a Jessé se estavam ali todos os filhos. O pai disse que faltava um o menor, o mais novo, que estava cuidando das ovelhas. Era ele que devia ser ungido.

No evangelho, Jesus passa perto de um cego de nascença. Os discípulos perguntam se ele nasceu assim por pecado dele ou dos pais. Aconteceu para que se manifestasse o poder de Deus. Creio que muitos se fazem a mesma pergunta diante desta calamidade planetária do Coronavírus-Covid 19, que não é fantasia da mídia. Jesus nos daria a mesma resposta. Ou seja, não é da China, nem de quer que seja. Podemos dizer: é oportunidade para voltar-nos a Deus, para retomarmos princípios e valores fundamentais.

Jesus, como ouvimos, curou o cego fazendo um lodo, colocando nos olhos e mandando-o lavar-se na piscina de Siloé. Então trava-se dura discussão entre fariseus, o cego e os pais dele. Querem saber como foi curado e acusam Jesus de ter pecado por tê-lo curado em dia de sábado. Quando interrogam o cego a respeito de quem o curou e de como fez, o cego primeiro diz que foi o homem chamado Jesus, depois que ele é um profeta e por fim que é enviado de Deus. O cego foi progredindo na descoberta de quem é Jesus. Finalmente, o próprio Jesus, sabendo que o cego passara dificuldades com os fariseus, foi procurá-lo e perguntou-lhe se acreditava no Filho do Homem. O cego perguntou quem era ele. Diante da declaração de Jesus de que era ele mesmo, o cego se prostrou e proclamou sua fé: eu creio, Senhor! Assim, quem não enxergava passou a enxergar, chegou à profissão da fé. Os fariseus que julgavam ver, não conseguiram chegar à luz da fé em Cristo.

No Batismo, recebemos a luz de Cristo. Andemos nela, como filhos da Luz, conforme pede São Paulo na segunda leitura.

À luz da Palavra de Deus deste domingo e na situação de isolamento que vivemos como grande meio de prevenção contra a pandemia que ameaça a todos, ocorrem-me algumas outras ponderações:

- O profeta Oseias, no capítulo 2, 14-15, diz  que Deus resolveu levar seu povo ao deserto para falar-lhe ao coração. Na situação que vivemos, sem poder ir à praça, a festas, ao lazer, no recolhimento de nossas casas, vamos cultivar momentos de silêncio, de leitura da Palavra de Deus, de retomada do catecismo, de oração ardorosa, de renovação de nossa fé e de nossa confiança em Deus. Sigamos o que nosso Papa recomendou quinta-feira à noite na oração do terço promovido pelos Bispos da Itália para pedir a Deus a superação desta epidemia: Nesta situação inédita, em que tudo parece vacilar, ajudemo-nos a permanecer unidos naquilo que realmente conta. Ele também disse: “E numa situação difícil e desesperadora, é importante saber que existe o Senhor a quem nos podemos agarrar". E Deus "nos apoia de muitas maneiras". Ele nos dá força e proximidade, como fez com os discípulos que na tempestade pediam ajuda. Ou quando deu Sua mão a Pedro que estava se afogando". Mais: "A oração nos faz compreender a nossa vulnerabilidade", mas o Senhor "nos transmite força e proximidade".

- O pedido ou a ordem das autoridades do campo da saúde de ficarmos em casa, nos remete à importância da família. Se na correria da vida, que forçosamente precisamos interromper, não temos tempo para o aconchego familiar, agora podemos tê-lo, para dialogar, para fortalecer a convivência. Vamos pedir insistentemente a Deus, como sugere o canto do Pe. Zezinho, abençoa, Senhor, as famílias, abençoa, Senhor, a minha também.  Também lembrar a solidão dos que morrem sem o conforto da presença da família e das famílias que não podem viver o funeral de seus mortos.

- A ordem é: cuidado. Cuidado. cuidado com a vida, dom e compromisso; cuidado de uns com os outros e de todos com a Casa Comum, na certeza de que Deus cuida de todos, sem dispensar-nos de fazer nossa parte. Este é um cuidado emergencial, com atitudes tão divulgadas para evitar o contágio deste terrível inimigo silencioso e traiçoeiro. Mas devemos ter cuidados permanentes, por exemplo, contra o vírus do egoísmo, pessoal e social, que agrava a situação que vivemos, que se revela, por exemplo, na ânsia de alguns estocar bens de consumo, sem pensar nos outros; contra o vírus da autossuficiência com a consciência da limitação e da interdependência humana; precisamos também de cuidados ecológicos permanentes, pois nós é que precisamos da terra e não ela de nós; de cultivarmos sempre gestos de fraternidade, ternura, solidariedade e otimismo, de boas maneiras na convivência; precisamos ser sempre cuidadosos no trânsito, com os que morrem de fome todo dia, e outros.

- Para concluir, convido a todos a dirigir uma súplica a São José, como fez o Papa na mencionada oração do terço na Itália, no dia da solenidade do Santo:

Protegei, Santo Defensor, este nosso País.

Iluminai os responsáveis pelo bem comum, para que saibam – como vós – cuidar das pessoas confiadas à responsabilidade deles.

Concedei a inteligência da ciência àqueles que procuram meios adequados para a saúde e o bem físico dos irmãos.

Sustentai aqueles que se dedicam aos necessitados: os voluntários, os enfermeiros, os médicos, que estão na linha de frente no tratamento dos doentes, mesmo à custa da própria incolumidade.

Abençoai, São José, a Igreja: a partir de seus ministros, fazei-a sinal e instrumento da vossa luz e da vossa bondade.

Acompanhai, São José, as famílias: com o vosso silêncio orante, construí a harmonia entre os pais e os filhos, de modo particular os mais pequeninos.

Preservai os anciãos da solidão: fazei que ninguém seja deixado no desespero do abandono e do desencorajamento.

Consolai quem é mais frágil, encorajai quem vacila, intercedei pelos pobres.

Com a Virgem Mãe, suplicai ao Senhor para que liberte o mundo de toda forma de pandemia.

(Pe. Antonio Valentini Neto, Administrador Diocesano de Erexim)