Notícia

A solidariedade no cuidado com a vida na tarde do quinto dia da novena de Fátima

Pe. Alvise Follador, Pároco da Catedral São José, presidiu e os padres Jean Demboski, Vigário Paroquial da Catedral e Pe. Valter Girelli, Reitor do Seminário de Fátima, concelebraram o terço e a missa das 14h, no Santuário, nesta terça-feira, Dia Nacional do Nascituro. A celebração teve a participação dos diáconos Pascoal Pozza e Lucas Stein, bem como de seis grupos de idosos (Reviver de Ponte Preta, Integração de Getúlio Vargas, Artesão de Viadutos, Viver e Recordar do Bairro Koller, Sempre Jovens do Bairro Três Vendas e Arco-Íris do Bairro Bela Vista, os três de Erechim).

No início da missa, Pe. Alvise recordou o centenário da Paróquia Catedral São José, celebrado recentemente, e os doentes, entre os quais o Bispo emérito Dom Girônimo Zanandréa.

Ele iniciou a homilia mencionando os símbolos do Mês Missionário Extraordinário, expostos perto do ambão da Palavra de Deus, a Cruz Missionária e o banner, com o tema e o lema: Batizados e enviados, a Igreja de Cristo em missão no mundo. Depois, comentou a primeira leitura da missa que narrava a ida do estrangeiro Naamã, portador de lepra, ao profeta Eliseu de Israel para ser curado. O profeta o mandou banhar-se 7 vezes no Rio Jordão. Ele ficou curado e proclamou sua fé no Deus da Aliança. Pe. Alvise lembrou que a lepra era fator de exclusão social e ressaltou a importância da confiança em Deus. Passou então a comentar o evangelho que trazia a parábola do Bom Samaritano, como resposta de Cristo ao doutor da lei que lhe perguntara qual o maior dos mandamentos e quem era seu próximo. A resposta não foi teórica, mas concreta. Um sacerdote e um levita, que trabalhavam no Templo de Jerusalém, passaram pelo homem ferido à beira da estrada em perigo de morte, mas o desviaram. Um estrangeiro, de viagem, parou, sentiu compaixão e fez o que podia para socorrê-lo. Observou que a parábola apresenta sério questionamento à religião que não gera a sensibilidade e a solidariedade com quem sofre. Concluindo a reflexão perguntou: quem de nós cuida, visita, está do lado de quem sofre, voluntariamente, sem ser da pastoral da saúde ou ministro?

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Íntegra da homilia do Pe. Alvise Follador

O que colocou Naamã, um estrangeiro, no caminho até o profeta Eliseu foi a insatisfação, seu sofrimento. Ele tem dificuldade em suportar o estado em que a doença o colocou. Sofrimento físico, com certeza, mas também a separação do corpo social, a exclusão. A lepra não tornava a pessoa apenas doente, mas também impura: não podia receber a visita de ninguém. Naamã vai até o profeta e recebe a ordem de ir banhar-se no rio Jordão. Isto, sem dúvida, para que se compreenda que só Deus é quem cura. “Agora eu sei que não há outro Deus na terra...”, diz Naamã ao ver-se curado. E Naamã não ficou na terra de Israel, mas voltou para a sua casa. Naamã é estrangeiro, não faz parte do chamado povo eleito. Por aí ficamos sabendo que, perante Deus, não há privilegiados. O lugar onde estou é o lugar da presença de Deus.

Dentro da pequena história de cada pessoa, provada por doenças, enfermidades e aflições, a cura é uma experiência privilegiada para dar glória a Deus como Salvador da nossa vida. Assim diz uma célebre fórmula de Santo Irineu de Leão: “O que a Deus lhe dá glória é um homem cheio de vida”. Esse corpo do leproso curado é um corpo que canta a glória de Deus. “Agora eu sei que não há outro Deus na terra...” diz Naamã.

Acreditamos saber tudo sobre o funcionamento do nosso organismo, mas a cura de uma grave doença não deixa de nos surpreender. Sempre é um “mistério” experimentar em nós como se recupera a vida, como se reafirmam as nossas forças e como cresce a nossa confiança e a nossa liberdade.

Poucas experiências se podem viver tão radicais e básicas como a cura, para experimentar a vitória frente ao mal e o triunfo da vida sobre a ameaça da morte. Por isso, ao nos curarmos, oferece-se a possibilidade de acolher de forma renovada Deus que vem a nós como fundamento do nosso ser e fonte de vida nova.

A medicina moderna permite hoje a muitas pessoas viver o processo de cura com mais frequência que em tempos passados. Temos de agradecer a quem nos cura, mas a cura pode ser, além disso, ocasião e estímulo para iniciar uma nova relação com Deus. Podemos passar da indiferença à fé, da rejeição ao acolhimento, da dúvida à confiança, do temor ao amor.

Este acolhimento saudável de Deus pode curar-nos de medos, vazios e feridas que nos fazem mal. Pode-nos enraizar à vida de forma mais saudável e liberta. Pode-nos curar integralmente. Assim Naamã, ele foi viver sua vida de uma forma diferente, certamente em ação de graças.  

 

E diante daquele que pede a Jesus o que deve fazer para herdar a vida eterna, Jesus o faz recordar o mandamento do amor. Mas ele ainda que saber: “quem é o meu próximo?”

Para compreender a revolução que Jesus quer introduzir na história e responder esta pergunta, temos de lembrar com atenção o relato do bom samaritano. Nele se descreve a atitude que temos que promover, para além das nossas crenças, posições ideológicas ou religiosas, para construir um mundo mais humano.

Na sarjeta de uma estrada solitária, está um ser humano, roubado, agredido, despojado de tudo, meio morto, abandonado à sua sorte. Neste ferido sem nome e sem pátria, Jesus resume a situação de tantas vítimas inocentes maltratadas injustamente e abandonadas nas sarjetas de tantos caminhos da história.

No horizonte aparecem dois viajantes: primeiro um sacerdote, depois um levita.  Ambos pertencem ao mundo respeitado da religião oficial de Jerusalém. Os dois agem de forma idêntica: veem o ferido, dão a volta e passam ao lado. Os dois fecham os seus olhos e os seus corações. Aquele homem não existe para eles e passam sem parar. Esta é a crítica radical de Jesus a toda a religião incapaz de gerar nos seus membros um coração compassivo. Que sentido tem uma religião desumana?

Pelo caminho vem um terceiro personagem. Não é sacerdote nem levita. Nem sequer pertence à religião do templo. É um estrangeirou, um samaritano. No entanto, ao chegar, vê o ferido, comove-se e aproxima-se. Então faz por aquele desconhecido tudo o que pode para resgatá-lo com vida e restaurar sua dignidade. Esta é a dinâmica que Jesus quer introduzir no mundo: não fechar os olhos. Saber olhar de forma atenta e responsável para os que sofrem. Esse olhar pode libertar-nos do egoísmo e da indiferença. Ao mesmo tempo, comover-nos e deixar que o seu sofrimento nos doa também a nós.

Mas o decisivo é reagir e aproximar-nos do que sofre, não para nos perguntarmos se tenho ou não alguma obrigação de ajudá-lo, mas para descobrir que é um necessitado e que precisa de nós por perto. A nossa ação concreta revelará a nossa qualidade humana e cristã. Tudo isso não é teoria. O samaritano do relato não se sente obrigado a cumprir um determinado código religioso ou moral. Simplesmente responde à situação do ferido, criando todo o tipo de gestos práticos destinados a aliviar o seu sofrimento e a restaurar a sua vida e a sua dignidade. Jesus conclui com estas palavras: “Vá, e faça a mesma coisa.”  Portanto com Maria, a Mãe atenta, solícita e fiel somos convidados e enviados em missão para cuidar dos que sofrem. Como diz o Papa Francisco: precisamos ser uma Igreja em saída.

Para cada um e cada uma refletir, respondendo para si mesmo: Quem de vocês visita ou cuida de alguém doente, idoso, sofredor, desamparado... voluntariamente?