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Novena de Fátima salienta que a vida eterna depende do cuidado com a vida presente

O cuidado com a vida foi o destaque da noite do quinto dia da novena de Fátima, nesta terça-feira, Dia Nacional do Nascituro, com a participação especial de pessoas que atuam em casas de saúde, especialmente os Hospitais Santa Teresinha, Caridade, Unimed e Santa Mônica e Centro de Apoio Oncológico Luciano (CAOL), pastoral da saúde e outras entidades. O enfoque do dia era “Com Maria, os que cuidam da vida enviados em missão”.

O terço e a missa foram presididos pelo Pe. Anderson Faenello, Pároco da Paróquia São Cristóvão e concelebrada pelo Pe. Edegar Passaglia, Vigário Paroquial da mesma Paróquia, pelo Pe. Valter Girelli, do Seminário de Fátima, e Pe. André Lopes, Pároco da Paróquia da Salette, Bairro Três Vendas, Erechim.

Grupo do Hospital Santa Teresinha encenou o Evangelho que narrava a parábola do Bom Samaritano, pela qual Jesus respondeu ao doutor da lei que lhe perguntou qual o maior mandamento e quem era seu próximo.

Após a homilia, para expressar o cuidado com a vida, representantes foram distribuídas mudas de árvores para algumas pessoas.

Pe. Anderson desenvolveu sua homilia partindo da pergunta do doutor da lei a Jesus sobre o que fazer para possuir a vida eterna, preocupação não muito presente atualmente, pois facilmente se pensa no momento presente. A resposta de Jesus ao especialista em leis enfatiza que a vida eterna passa pelo amor. O amor que vem de Deus e que tem sua expressão máxima na cruz redentora de Cristo. Neste amor é possível fazer como o samaritano, que é o próprio Cristo, ver a situação do irmão ferido pela violência pela exclusão social, aproximar-se, ter compaixão e fazer o que é possível para socorrê-lo. É esta atitude que leva a superar a criminalidade que faz tantas vítimas, pois não se pode superar a violência com mais violência, com arsenais, com portes de armas, como querem muitos, mas sim, com gestos opostos, de cuidado, de compaixão, de misericórdia, de dignidade. Considerando a descrição do gesto do samaritano com o ferido, Pe. Anderson relacionou dez palavras, como dez são os mandamentos da Lei de Deus na Sagrada Escritura: (1) chegou junto dele, (2) viu-o (3) e moveu-se de compaixão. (4) Aproximou-se, (5) cuidou de suas feridas, (6) derramando óleo e vinho, depois (7) colocou-o em seu próprio animal, (8) conduziu-o à hospedaria, (9) dispensou-lhe cuidados e (10) pagou a hospedagem. Segundo Pe. Anderson, tudo parte de olhos sensíveis e coração compadecido que sabem ver a situação do necessitado e assumir o cuidado da vida do irmão. O samaritano olhou para onde Deus olha. Por isso viu, sentiu e cuidou. Onde está o olhar de Cristo aí deve estar o olhar do cristão. (Em fotos, colaboração de Cláudio de Oliveira)

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Íntegra da homilia do Pe. Anderson Faenello

Com Maria, os que cuidam da vida enviados em missão

“Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Essa pergunta, que introduz a passagem do Evangelho que acabamos de ouvir, dirigida a Jesus por um especialista em leis, revela um desejo profundo: a vida eterna! O que fazer para possuir a vida eterna? Se um de nós, em lugar desse especialista em leis, tivesse a oportunidade de encontrar-se face a face com Jesus, o que perguntaria? Qual seria a minha demanda? Qual o meu desejo?

Facilmente nos voltamos a Deus e pedimos muitas coisas. Muitos de nós, certamente, trazemos a esta celebração, à novena, à romaria, uma lista grande de pedidos: saúde, cura, transformação de determinada situação, solução de determinado conflito, estabilidade profissional; quiçá até um pouco de sucesso pessoal, algo em termos materiais... tais pedidos não são reprováveis. Não me entendam mal! Mas ousaríamos pedir: o que fazer para receber a vida eterna?

A mensagem do Evangelho mais do que nos ensinar a ter, ensina-nos a SER. É sendo que alcançamos o horizonte último de nossa existência, a eternidade! Facilmente nos perdemos ante os muitos fascínios do mundo, nas satisfações momentâneas, e temos dificuldades de olhar para o Céu, de apostar no eterno.

O que fazer para receber a vida eterna? Jesus responde com nova pergunta: “o que está escrito? Como você lê?” O homem recorda o Decálogo, os Mandamentos. Em resumo: amar a Deus sobre tudo e o próximo como a si mesmo. Jesus elogia a certeza do homem: “respondestes corretamente”. E desafia: “faze isso e viverás!”

O prêmio da vida eterna passa pela vivência do amor. Mas não um amor qualquer. O amor que brota do mais íntimo de Deus. Do amor que nasce do amor de Deus. O amor que se doa, que morre pelo amado. Bem o recorda o Evangelista João na primeira de suas cartas: “todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,7-8).

Esse amor que brota de Deus, que conduz à vida eterna, que sacia a nossa sede de infinito exige a radicalidade da aproximação, do cuidado e da compaixão vividos em relação ao próximo. Mas quem é o meu próximo?

A pergunta do especialista em leis interpela-nos também a nós, no hoje de nossa história: quem é o meu próximo? E aí precisamos reconhecer o alcance missionário desse texto: do estar a caminho, do estar no Caminho, e aí ter os olhos de Deus. “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo e lhe espancaram”. Este homem não tem nome, mas tem uma dignidade: também ele é imagem e semelhança de Deus.

No nosso caminho, curto ou longo, para casa, para o trabalho ou para a Igreja, também podemos nos deparar com caídos de quem sequer sabemos o nome. Qual é a minha atitude, como missionário do Caminho: olhar e passar adiante, pelo outro lado (como o fizeram o sacerdote e o levita), ou colocar-me sensível às suas necessidades? O que faço? O que fez Jesus?

Como cristãos, como homens e mulheres de Deus no mundo, como carecemos dessa sensibilidade que nos faz reconhecer no outro os sinais de Deus, a sua imagem, não obstante o quanto possa estar desfigurado ou desumanizado.

Mas aparece alguém disposto a cuidar, o Samaritano. Igualmente o texto não diz quem é este homem que cuida. Limita-se a identificá-lo como um Samaritano. Realmente, o que importa não é quem o fez, mas sim, que, havendo situação de necessidade, de vulnerabilidade, de abandono, alguém se dispôs a cuidar, a remediar.

O remédio melhor que oferece esse samaritano não é aquele que ele derrama nas feridas do homem caído, mas sim aquele capaz de recompor sua alma, de reconstruir sua dignidade. A confiança na humanidade ferida pela violência dos assaltantes foi devolvida pelo gesto de compaixão do samaritano. Definitivamente, não se pode superar a violência com mais violência, com arsenais, com portes de armas, como querem muitos, mas sim, com gestos opostos, de cuidado, de compaixão, de misericórdia, de dignidade. É apresentar a outra face!

O Samaritano, que é o próprio Cristo, ensina-nos Mandamentos novos para viver os antigos. Aqui também há um Decálogo. O Decálogo da compaixão, que conduz à vida eterna. Quantos mesmo são os Mandamentos da Lei de Deus? São 10. Contem comigo quantos são os verbos que indicam as ações desse Samaritano: (1) chegou junto dele, (2) viu-o (3) e moveu-se de compaixão. (4) Aproximou-se, (5) cuidou de suas feridas, (6) derramando óleo e vinho, depois (7) colocou-o em seu próprio animal, (8) conduziu-o à hospedaria, (9) dispensou-lhe cuidados e (10) pagou a hospedagem. Quantos são os verbos? ... É um belo e desafiador Decálogo.

E tudo começa pelo chegar junto e ver. O desafio está no ver. Tudo o mais descende dele. Porque viu, moveu-se de compaixão, aproximou-se e cuidou. Se não somos capazes de ver, tão pouco seremos capazes de nos comover, de nos aproximar e de cuidar. Esse ver ao qual nos provoca Jesus, é muito mais do que o “enxergar”, é reparar, é perceber, é sentir. Somente quem sente é capaz de colocar-se no lugar de quem sofre. Quem não sente o seu sofrer não entende a sua dor.

O cuidado requer o sentir. O sentir depende do ver, depende do olhar. Este olhar é antes um olhar para Jesus. O olhar para Jesus necessariamente me leva a olhar com Jesus. É como quando olhamos para alguém e percebemos seus olhos fitos em alguma coisa. Logo direcionamos também os nossos olhos para a mesma direção. O samaritano olhou para onde Deus olhava, por isso viu, sentiu e cuidou. Onde está o olhar de Cristo aí deve estar o olhar do cristão.

“Vai (seja missionário), e também tu, faze o mesmo”. Seja capaz de um olhar que vê, que sente, que cuida e que conduz à vida eterna. Amém.

 

Pe. Anderson Francisco Faenello