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Pe. Spadaro explica declarações do Papa no filme "Francesco", mas interrogações permanecem

O diretor da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, Pe. Antonio Spadaro SJ, se apressou em sair nesta quarta-feira, 21 de outubro, e assegurar que o apoio do Papa Francisco às uniões civis homossexuais não é “nada novo” e também indicou que isso não significa uma mudança na doutrina. No entanto, a declaração do Santo Padre gerou mais perguntas do que respostas sobre a origem e a natureza do que disse no novo documentário "Francesco".

Em um vídeo publicado por TV2000, emissora de televisão que não pertence ao Vaticano mas sim aos bispos da Conferência Episcopal Italiana, Pe. Spadaro, que não é porta-voz do Vaticano, assegurou que “o diretor do filme 'Francesco' reúne uma série de entrevistas que foram feitas ao Papa Francisco ao longo do tempo, dando uma grande síntese do seu pontificado e do valor das suas viagens. Entre elas há vários trechos retirados de uma entrevista com Valentina Alazraki, jornalista mexicana, onde o Papa Francisco fala do direito à tutela legal dos casais homossexuais, mas sem mudar a doutrina de forma alguma”.

No entanto, os questionamentos surgiram pelo fato de o diretor do documentário, Evgeny Afineevsky, ter dito a Hanna Brockhaus, correspondente sênior em Roma da CNA, agência em inglês do Grupo ACI, que a declaração específica a favor de legalizar as uniões civis do mesmo sexo foram feitas diretamente a ele e a mais ninguém.

Se assistir ao vídeo da entrevista que o Papa Francisco concedeu a Alazraki, jornalista da rede de TV mexicana Televisa, vê-se que é exatamente o mesmo que foi usado por Afineevsky em "Francesco".

O trecho do documentário – legendado em inglês pela equipe "Francesco" – em que se fala sobre a homossexualidade foi divulgado no dia 21 de outubro pelo jornal argentino La Nación e divulgado no Twitter por @CatholicSat:

Pe. Spadaro disse também à TV2000 que nestas declarações do Papa “não há nada de novo. Trata-se de uma entrevista de muito tempo atrás e que já passou pela recepção da imprensa”.

A entrevista de Alazraki foi divulgada em 1º de junho, mas a parte específica em que o Papa Francisco expressa seu apoio às uniões civis do mesmo sexo nunca foi incluída no vídeo oficial da Televisa, como se pode confirmar na versão de 1 hora e 17 minutos de duração. O vídeo oficial da Televisa pode ser visto aqui, mas não está acessível em algumas regiões, incluindo os Estados Unidos.

O vídeo a seguir compara os fragmentos da entrevista originalmente publicada por Televisa com a edição e legendas originais do filme “Francesco”.

A senhora Alazraki não se lembra dessa parte específica da entrevista que em 28 de maio de 2019 foi publicada extensivamente em Vaticano News, site oficial de notícias do Vaticano, mas sem as palavras do Papa sobre as uniões civis homossexuais.

Em uma entrevista de 2014 ao jornal italiano Corriere della Sera, o Papa Francisco falou brevemente sobre as uniões civis homossexuais quando questionado a respeito. O Santo Padre distinguiu entre casamento, formado por um homem e uma mulher, e outros tipos de relações reconhecidas pelos governos. O Papa se recusou a falar sobre o debate das uniões civis do mesmo sexo durante a entrevista e um porta-voz explicou posteriormente que não tinha intenção de fazê-lo.

O Papa Francisco também se referiu ao tema no livro pouco conhecido “Pape François. Politique et société”(Papa Francisco: Política e Sociedade), escrito pelo sociólogo francês Dominique Wolton em 2017, depois de entrevistar em várias ocasiões o Pontífice.

Na tradução em inglês de 432 páginas, intitulada "A Future of Faith: The Path of Change in Politics and Society" (Um futuro de fé: O caminho de mudança na política e na sociedade), Wolton diz ao Papa Francisco que "os homossexuais não são necessariamente a favor do 'casamento'. Alguns preferem a união civil. É tudo complicado. Além da ideologia da igualdade, há também na palavra 'casamento' uma busca pelo reconhecimento”.

A essa afirmação, o Papa Francisco responde brevemente: “Mas não é casamento. É uma união civil”.

Baseados nessa referência fugaz, alguns dos que comentaram o livro, como a revista jesuíta norte-americana “America”, asseguraram que no livro o Papa “reitera sua oposição ao casamento gay mas aceita a união civil de pessoas do mesmo sexo”.

Vários jornalistas, incluindo CNA, tentaram sem sucesso obter esclarecimentos diretos do Vaticano.

Fonte: ACIDigital