Voz da Diocese

A urgência do cuidado
08/03/2020

A Campanha da Fraternidade, assumindo como tema deste ano a vida, dom de Deus, com o qual temos o intransferível compromisso de construí-la segundo seu projeto, buscou o seu lema na parábola do bom samaritano, que não foi indiferente com o assaltado e machucado deixado à beira da estrada, prestando-lhe os cuidados necessários.

Por seu lema, a Campanha está nos convocando à mesma atitude que brota da compaixão, do sentir a situação do outro, sem olhar a sua condição social, étnica, religiosa ou político-partidária. Papa Francisco, na mensagem que enviou para esta Campanha, lembrando que ela trata da vida, ressalta “nossa responsabilidade de cuidá-la em todas as suas instâncias”, de modo particular “diante de tantos sofrimentos que vemos crescer em toda parte, que provocam ‘gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo com um lamento que reclama de nós outro rumo”, chamando-nos a “ser Igreja samaritana”. Ele ressalta que o chamado quaresmal à conversão deve despertar em nós a compaixão pela dor de quem sofre e não encontra quem o ajude. E esta compaixao precisa concretizar-se na solidariedade, no cuidado.

O cuidado é uma necessidade básica sempre mais urgente para tudo. Cuidado com a própria vida e a dos outros; cuidado com os bens essenciais oferecidos pela natureza, pois não são ilimitados; cuidado com a Casa Comum, com o meio ambiente. Muitos cientistas apontam para a situação dramática dele. O cuidado com ele se torna um desafio cada vez mais inadiável. Mas ninguém cede. Países ricos não querem renunciar à quota necessária de diminuição do nível de consumo a que chegaram.

O cuidado tem muitas dimensões. A fundamental é a humana. Papa Francisco exorta com frequência a superarmos a cultura da indiferença para sermos solidários com todos, especialmente com os mais necessitados. Entre eles, estão os mais frágeis, as crianças e os idosos.

Leonardo Boff afirma que há uma falta incomensurável de cuidado. Esta falta tem como consequência número sempre maior de pobres, de crianças nas ruas, idosos sem assistência, milhões de pessoas sem viverem o tempo que poderiam e a terra explorada predatoriamente, comprometendo o futuro da vida no Planeta.

Para ele, sem cuidado, o ser humano não sobrevive. “Um recém-nascido deixado a si mesmo, após poucas horas, morre. Se não cuidarmos de nossa saúde, de nossa formação permanente e de nossa espiritualidade, lentamente, vamos degenerando, adoecemos, nos desatualizamos e embrutecemos. O cuidado é a maior força que se opõe à lei suprema da entropia, vale dizer, do desgaste natural das coisas. Tudo o que cuidamos dura muito mais, desde a camisa que usamos até as mãos que escrevem este texto” (site do autor - https://leonardoboff.wordpress.com).

Deus cuida de nós e de toda a sua obra. Nós devemos cuidar de nós, dos outros e de tudo o que nos rodeia e que faz parte de nossa vida. O desafio é o cuidado do essencial, daquilo de que devemos cuidar mais e do que nem tanto.

Conforme ainda Leonardo Boff, sem este “cuidado, transformado em paradigma de compreensão e de atuação e articulado com a solidariedade e a responsabilidade poderá salvar a vida, a espécie humana e o planeta Terra. Sem ele não há paz nem alegria de viver”.

Pe. Antonio Valentini Neto – Administrador Diocesano.

 

- Pe. Antônio Valentini Neto