Voz da Diocese

Formas de olhar e consequentemente de agir
15/03/2020

O olhar do sacerdote e do levita e o do bom samaritano para o machucado à beira da estrada sem poder fazer algo por si mesmo foram muito diferentes. O dos dois primeiros foi de indiferença e frieza, por isso seguiram adiante. O do outro foi de compaixão e por isso parou, interrompeu seu percurso e prestou-lhe os cuidados que podia para aliviar sua dor, sem olhar sua classe social, religião, ideologia ou outro aspecto. Colocou vinho e óleo em suas feridas, colocou-o em sua montaria e o levou para uma pensão arcando com as despesas pela hospedagem e com os cuidados de que ainda necessitasse.  

Um provérbio latino diz que o agir segue o ser. No caso, a atitude dos três seguiu o seu olhar. A Campanha da Fraternidade, que assumiu como lema as atitudes do samaritano, ver, sentir compaixão e cuidar, fala em diferentes olhares, o da indiferença, que gera ameaças à vida e o da solidariedade social, que permite reconhecer inúmeras pessoas que atuam em favor da vida nas mais diversas formas e em diferentes organizações populares e órgãos públicos.

No olhar da indiferença, a Campanha distingue o olhar que abandona a vida, o olhar que destrói a vida e o olhar que exclui a vida.

No olhar que abandona a vida, cita diversos fatores que se constituem em graves agressões à vida, como a desigualdade, as novas formas de pobreza, o aborto, o desemprego, a automutilação, o suicídio, os acidentes de trânsito, os ataques aos povos indígenas, o feminicídio, os conflitos por terra e água. Em 2017, o Brasil era o 9º país mais desigual em distribuição de renda. Em 2018, os 50% mais pobres da população tiveram seus rendimentos do trabalho diminuídos em 3,5%, enquanto o dos 10% mais ricos aumentou 6%. No primeiro trimestre de 2019, havia 13 milhões e quatrocentos mil desempregados no País. Em 2016, foram registrados 11.483 suicídios, correspondendo a 31 por dia. Nos seis primeiros meses de 2018, houve 19.398 mortes e mais de 20 mil pessoas com invalidez permanente em consequência de acidentes de trânsito. As principais causas dos mesmos são a negligência ou imprudência e a não observância das leis de trânsito pelos motoristas. Em 2017, as vítimas de feminicídio no mundo foram 2.795, das quais 1.133 no Brasil. Entre 203 e 2018, houve 1.200 assassinatos de indígenas e só em 2017, 71 por conflitos de terra.

Em relação à nossa Casa Comum, há uma complexa crise socioambiental, com alterações climáticas, extinção de espécies, resultado da exploração desordenada e do aumento da poluição. O Brasil é o país que mais usa pesticidas.

Essas e outras formas de sofrimento, segundo o texto base da Campanha, “mostram que a vida é continuamente ameaçada. A todo momento, ela é confrontada com uma mentalidade que insiste em colocar o lucro acima das pessoas e da dignidade humana. O mercado, ídolo que seduz a um consumismo desenfreado, atropela a vida dos mais pobres sem escrúpulo nem constrangimento algum. Com isso, cresce a indiferença com a situação dos mais frágeis e se desenvolve a cultura da invisibilidade e do descartável” (nº 67).

Menos mal que há também o olhar da solidariedade social. Surgem e se consolidam muitos serviços em favor da vida. A Pastoral da Criança conta com 74 mil voluntários que atendem 800 mil crianças. Agentes das 26 pastorais sociais da Igreja no Brasil promovem e cuidam da vida humana.

Resta perguntar-nos: qual é o nosso olhar? Deve ser este olhar solidário, que leva a cuidar da vida em suas diferentes expressões, especialmente a humana. Com ele, superamos o egoísmo e a indiferença.

Pe. Antonio Valentini Neto – Administrador Diocesano.

- Pe. Antônio Valentini Neto